Isto não é um paciente

Uma das imagens mais icônicas da arte moderna – no caso específico, do movimento surrealista – é a obra A traição das imagens do belga René Magritte. Nela, o artista contrapõe a imagem de um cachimbo seguida pela frase “Isto não é um cachimbo”, criando uma espécie de dissonância cognitiva causada pelas duas informações conflitantes. É provável que, mais do que uma brincadeira, o autor quisesse demonstrar as armadilhas criadas tanto pelas imagens que representam as coisas da vida real como a própria linguagem que descreve ou define essas mesmas coisas. Assim, a representação de um cachimbo não é o próprio cachimbo, pois não podemos fumá-lo, embora o represente com alguma fidelidade. Da mesma forma, embora a palavra “cachimbo” desencadeie imediatamente em nós a imagem de um cachimbo, ela tampouco pode ser fumada. Embora haja quem não veja muito mais que um jogo de palavras e imagens na obra, ela pode ser bastante inspiradora em várias situações de nossas vidas.

Na própria medicina, é comum que troquemos textos e imagens pela “coisa em si” e, dessa forma, corremos o risco de confundir as pessoas de carne e osso a quem atendemos com seus simulacros representados por exames de imagem, laudos laboratoriais ou informações escritas na tela de um computador. Embora não se duvide que muitas vezes os exames e as informações clínicas do prontuário são importantes na condução de um caso clínico, é evidente que eles nunca deveriam receber mais atenção que a própria pessoa atendida, a qual algumas vezes jaz triste e abandonada em um leito qualquer do hospital ou mesmo na cadeira à nossa frente no consultório aguardando pela nossa atenção.

Infelizmente, é cada vez mais raro vermos os médicos à beira do leito conversando e examinando os pacientes, discutindo seus casos em equipe e contando com a inestimável participação do próprio paciente ali presente. O próprio termo ronda clínica (o antigo round na enfermaria) significa um périplo da equipe – médico ou professor, alunos e diversos profissionais da equipe multidisciplinar – por entre enfermarias e leitos onde pacientes anseiam por atenção e maiores informações sobre seu caso. Embora seja mais confortável para a equipe ficar sentada em volta de uma mesa olhando exames e informações clínicas digitalizadas, nunca é demais lembrar que “isto não é o paciente”: tomografias, ressonâncias e informações em computadores são apenas simulacros de pacientes e não sofrem na pele as dores causadas por uma doença qualquer.

Em uma época em que a medicina parece se descolar da realidade de carne e osso de pacientes e dos próprios médicos, nunca foi tão crucial reforçar a importância da presença do médico à beira do leito, não apenas para os profissionais já formados, mas em especial para aqueles estudantes em formação. Afinal, se eles não aprenderem durante os anos da faculdade a arte da medicina praticada à beira do leito, não é de se esperar que o façam depois de formados. Neste sentido, é muitíssimo bem-vinda a iniciativa da nova edição do Medicina Interna de Harrison (um dos livros mais icônicos da medicina), o qual traz pela primeira vez um capítulo inteiramente dedicado à importância do exame físico na medicina moderna. Nele, Abraham Verghese e Steve McGee deixam clara a necessidade de se continuar procedendo ao exame físico dos pacientes mesmo nesses tempos de uma medicina hipertecnológica, pois isso é importante não apenas para a coleta de informações clínicas, mas também para a complementação do ritual da consulta médica, sem o qual ficam frustrados tanto o paciente como o bom clínico. Afinal, mesmo com toda a tecnologia disponível, pessoas de carne e osso seguem necessitando do toque de pele, de um olhar atento e de uma escuta atenciosa.

Não é difícil imaginar que, enquanto médicos discutem a portas fechadas o tratamento de um paciente digitalizado, seu homônimo de carne e osso pode estar em seu leito cheio de dúvidas sobre se vai estar vivo e em condições de, por exemplo, comparecer à tão esperada formatura de uma filha. Ou então que, enquanto dedicamos longas horas discutindo filigranas em uma tomografia de tórax, o paciente em questão só queira saber se poderá voltar a exercer seu amado hobby de escrever poesia. Ou mesmo que um paciente sofra uma parada cardíaca não testemunhada enquanto os médicos responsáveis pelo caso estavam longe dali discutindo as imagens de sua angiografia coronária.

No final das contas – e em uma época em que os próprios médicos estão ameaçados pelas mais diversas máquinas, robôs e outras tecnologias –, é fundamental reforçarmos a presença do médico à beira do leito e a necessidade de que os atuais professores se esforcem para transmitir às novas gerações de médicos – e pacientes – a importância desse ritual. Também é crucial lembrarmos que radiografias e computadores são apenas representações extremamente simplistas daquela pessoa que adoeceu e que agora depende de nosso cuidado para recuperar a saúde. Assim como a imagem na tela de Magritte não era um cachimbo verdadeiro, também aquela impressionante imagem da ressonância magnética nem de longe representa a complexidade do ser humano a quem devemos, conforme nosso juramento hipocrático, devotar todo nosso cuidado. E se o paciente de carne e osso representar de fato “a coisa em si” kantiana, então ele existe independente de nossas tomografias e ressonâncias. E mais do que de imagens, é dessa frágil e complexa criatura que devemos cuidar com todo nosso afinco.