O triste fim da teoria amiloide

A recente revisão sistemática publicada pela Cochrane[1] acaba de jogar a pá de cal definitiva em uma das teorias mais discutíveis das últimas décadas: a teoria de que a doença de Alzheimer é causada primariamente pelo acúmulo de amiloide cerebral e que a remoção farmacológica desse acúmulo poderia gerar benefícios clínicos. A teoria tem diversos pontos fracos, como o fato de o acúmulo de amiloide estar relacionado ao envelhecimento normal em pessoas absolutamente saudáveis sob o ponto de vista cognitivo. Porém, se os bilhões gastos com a teoria amiloide não geraram nenhum benefício para os pacientes, o mesmo não se pode dizer da indústria farmacêutica, a qual lucrou muito e continuará lucrando com uma teoria agora comprovadamente furada. Apesar disso, essa história triste poderia nos trazer inúmeros ensinamentos.

Em primeiro lugar, o que a revisão da Cochrane demonstrou – a absoluta ausência de benefícios clinicamente relevantes – não é de forma alguma novidade para quem acompanhou o desenvolvimento dos anticorpos monoclonais antiamiloide. Mesmo os estudos conduzidos e milimetricamente ajustados pela própria indústria farmacêutica para mostrar alguma significância estatística não tinham conseguido produzir nenhum resultado clinicamente relevante, pois os supostos benefícios clínicos estavam sempre muito abaixo do limiar de percepção dos melhores instrumentos de avaliação usados pelos médicos. Assim, desde o início da teoria antiamiloide, o que foi defendido por muita gente foi basicamente a adoção sistemática de drogas extremamente caras e potencialmente perigosas que nunca tiveram um benefício clinicamente relevante demonstrado.

Ainda assim, a pressão da indústria farmacêutica, de alguns grupos de defesa dos pacientes (muitas vezes financiados por essa mesma indústria) e de alguns profissionais (algumas vezes também eles financiados pela indústria farmacêutica) fez com que vários sistemas de saúde do mundo todo adotassem ou considerassem a adoção dessas drogas caríssimas que reconhecidamente não apresentavam nenhum benefício clínico relevante, mesmo nos estudos potencialmente enviesados e com benefícios sempre superestimados realizados pela indústria.

Quem tem dificuldade em concordar com essa última afirmação deve lembrar que os ensaios clínicos da indústria costumam incluir apenas aquele seleto grupo de pacientes com maior chance de benefício e menor risco de efeitos colaterais para participar de seus estudos. Também é indiscutível que os cuidados na administração das drogas durante um estudo são diferentes daqueles da vida real. Além disso, como sugerem os autores da revisão Cochrane, é muito provável que tenha havido a quebra do cegamento durante os estudos, uma vez que os anticorpos monoclonais antiamiloide causavam efeitos colaterais que ajudavam médicos e pacientes a identificarem quem recebia as drogas antiamiloide ou o placebo, o que tem alto potencial para enviesar os resultados.

Em segundo lugar, o vexame das drogas antiamiloide nos mostra que estamos, sob muitos aspectos, reféns da indústria farmacêutica, a quem delegamos a função de realizar os estudos clínicos de suas próprias drogas, o que é absolutamente ridículo sob o ponto de vista científico. O caso dos anticorpos antiamiloide mostra que a pressa em adotar novas drogas promissoras com base apenas em um ou dois estudos realizados pelo própria indústria é algo perigosíssimo para os cofres públicos e para a saúde da população. A partir de agora será extremamente constrangedor explicar a um cidadão qualquer como um sistema de saúde pode ter gastado bilhões na compra de medicamentos clinicamente inúteis. Será igualmente vergonhoso tentar explicar a alguém cujo familiar tenha sofrido complicações desses tratamentos que ele nem mesmo deveria ter recebido a tal droga, já que ela sempre foi clinicamente irrelevante.

Vivemos em uma época de ansiedade científica na qual, por várias razões, temos pressa em adotar as últimas novidades em termos de novas intervenções médicas. De certa forma, isso é compreensível, uma vez que desejamos de boa-fé auxiliar nossos pacientes a viverem melhor. Por outro lado, é evidente que as novas drogas sempre terão uma base científica mais frágil, uma vez que esta base depende apenas de um ou dois estudos de gosto duvidoso conduzidos pela própria indústria farmacêutica. Porém, uma ciência robusta, confiável e socialmente responsável depende sempre de uma quantidade maior de dados e, principalmente, de dados produzidos por pesquisadores que não estejam financeiramente ligados a essa indústria. Este é o caso da revisão da Cochrane sobre o assunto, a qual foi realizada por pesquisadores isentos de conflitos de interesse com a indústria.

Não se deve esperar, contudo, que a indústria farmacêutica desista prontamente dessa empreitada bastante lucrativa de vender anticorpos monoclonais para tratar pessoas com doença de Alzheimer. Pelo contrário, com o surgimento de testes para marcadores biológicos – de relevância clínica também duvidosa – para a detecção do risco da doença de Alzheimer, a previsão da indústria é de que as vendas dessas drogas aumentem muito. Porém, como profissionais e cidadãos, devemos nos questionar para que diabos serviria a realização de testes prognósticos duvidosos com a subsequente administração de drogas agora sabidamente inúteis se não para sugar dinheiro público do sistema de saúde e engordar ainda mais as burras da indústria farmacêutica.

O velho Archie Cochrane, cujo legado é homenageado pela organização que leva seu nome, defendia arduamente a eficiência dos sistemas de saúde. Em outras palavras, ele defendia que se pudesse produzir o máximo possível de benefícios de saúde para a população com os recursos disponíveis. É evidente que essas drogas antiamiloide, com seus preços indecentes, não se enquadrariam na categoria de tratamentos eficientes nem mesmo se tivessem algum benefício clinicamente relevante. Como agora está claro que elas em nada contribuem para a saúde da população, resta esperar que sua triste história nos tenha servido de aprendizado e nos proteja contra os novos achaques aos recursos do sistema de saúde.


[1] https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD016297/full