Em meados de 2019, um artigo do Lancet chamou muito a minha atenção por citar o surgimento do que era, para mim, uma nova e bizarra especialidade médica: o virtualista. Em resumo, o artigo explicava que virtualista era o médico que atendia pacientes com os quais nunca teria contato físico. Jamais me passou pela cabeça, na ocasião, que isso pudesse se confirmar dali a algum tempo ou ter um caráter premonitório.
Como médico com uma visão mais generalista (internista por formação), sempre tive dificuldade em entender e considerar adequado tamanho fatiamento dos cuidados de saúde. Dentro da medicina, especificamente, há muito tempo dividimos os cuidados dos pacientes entre órgãos e sistemas (pneumologistas, cardiologistas, nefrologistas, etc.). Depois, passamos a dividi-los conforme a etapa da vida das pessoas: pediatras, hebiatras, geriatras, etc. Já estávamos nos acostumando a isso, quando resolveram dividir os cuidados conforme o local de atendimento. Nesse momento surgiram os intensivistas, os emergencistas, os hospitalistas, etc. Como se já não bastasse isso, agora querem dividir os profissionais entre aqueles que têm contato físico – e, portanto, humano – com os pacientes e aqueles que optariam por evitar esse tipo de contato: os virtualistas.
Fico pensando em qual será o nome dado a esses nobres resistentes da medicina que, como eu, insistirão em atender pessoalmente os pacientes. São aqueles médicos à moda antiga que insistem em atentar para detalhes como microexpressões faciais, a postura do paciente ao caminhar até a sala de consulta ou o tipo de aperto de mão ou abraço que é trocado ao receber o paciente vindo da sala de espera. Talvez venham a ser chamados de “realistas” em contraponto aos “virtualistas”. Pessoalmente, torço para que escolham um termo que faça alusão ao “homem de carne e osso”, como dizia Unamuno. Sei que um “carneossista” nunca faria muito sucesso comercial, mas serviria para nos lembrar das nossas origens e do que realmente importa quando alguém adoece e se depara com o “sentimento trágico da vida”, aquela percepção da nossa própria condição de ser mortal.
Está claro que há muitas pessoas que ficariam à margem dessa tal “medicina virtual”, principalmente os mais idosos e pobres. Mas talvez estes sejam exatamente os que mais precisem de atenção do médico. Por isso, é importante resistir às crescentes pressões para que a medicina virtual prevaleça sobre a medicina real e humana. Em um período crítico como o atual, podemos lançar mão dessas ferramentas. Mas são exatamente esses momentos críticos que o poder econômico usa como “oportunidade” para implementar ideias e modelos que sejam de seu interesse. É nessas horas que são tomadas decisões que podem muito bem mudar os rumos da medicina como a conhecemos. Daí a importância de não esquecermos de nossa natureza humana… de carne e osso.
