Muita gente que foi criança no século XX deve ter uma lembrança semelhante: era muito comum conhecer alguém que tinha em casa um familiar mais velho que estava “caduco”. Era assim mesmo que se falava quando não existiam ainda as várias demências de hoje. As pessoas perdiam parte da memória e adotavam comportamentos excêntricos, mas continuavam convivendo com os seus até morrerem. Como não recebiam diagnósticos médicos, elas apenas caducavam.
Caducar é algo muito mais rico que ficar demente ou “sem mente”. Quem caduca, o faz de corpo inteiro. Além da falta de memória e de outras capacidades cognitivas, caducar também significa simplesmente ficar velho, expirar o prazo de validade ou deixar de existir. Em latim, o adjetivo caducus ainda significa algo que já caiu ou que está por cair. Enquanto o termo demente pode sugerir que a pessoa esteja bem sobre todos os outros aspectos do organismo, o termo caduco é mais condizente com a realidade, pois na maioria das vezes a pessoa já apresenta vários outros problemas de saúde.
A questão é saber se as pessoas perceberam alguma vantagem quando se passou a considerar todos os caducos como portadores de algum tipo específico de demência. Em primeiro lugar, com exceção de raras causas reversíveis de demência, o diagnóstico exato do tipo de demência pouco ajuda a pessoa ou a família. Além disso, mesmo com testes modernos como RM e PET-CT, o diagnóstico etiológico da demência costuma ser inexato. Isso ocorre em parte por falta de especificidade dos testes e em parte porque não existem doenças e, sim, doentes. Assim, o mais provável é que a pessoa esteja doente por mais de um fator (um exemplo é a associação comum de Alzheimer com doença cerebrovascular).
Também é importante lembrar que a etiologia exata não tem influência sobre o sofrimento que ela causa. Nas doenças vasculares, o tratamento de múltiplos fatores de risco cardiovascular é justificado, mas seu impacto nos sintomas do paciente é insignificante. O caso dos tratamentos farmacológicos para a doença de Alzheimer é ainda mais decepcionante: apesar de caríssimos, é raro ver qualquer impacto significativo nos pacientes individuais. Quem trata pessoas com síndromes demenciais já deve ter notado que a associação mais significativa entre medicamentos e função cognitiva é uma associação negativa: quanto menos medicamentos, melhor o quadro neurológico da pessoa. Isso é muito comum ao recebermos pessoas gravemente afetadas por “demência” usando vários medicamentos (especialmente sedativos e antipsicóticos) e que apresentam melhora fantástica após a sua suspensão.
Outro aspecto moderno do manejo dessas pessoas é a institucionalização cada vez mais precoce. Parece que, a partir do momento em que as pessoas deixaram de ser caducas e passaram a ter um rótulo diagnóstico, elas passaram a pertencer ao sistema de saúde, e não à família. É claro que cuidar de alguém nessa situação representa uma sobrecarga para a família, mas a medicalização da caduquice tem seus riscos. Por melhor que seja o tratamento recebido em muitas instituições para idosos, nada se compara ao lar e à família. É fácil ver pessoas idosas apresentarem uma piora clínica vertiginosa logo após a sua institucionalização.
Seria maravilhoso se houvesse um tratamento efetivo para as síndromes demenciais, mas infelizmente este ainda não é o caso. É fundamental continuar as pesquisas e oferecer o melhor tratamento a essas pessoas, mas sem cair em uma espécie de fanatismo terapêutico. Mais do que nunca, nesse caso a MBE deveria significar uma Medicina Baseada na Empatia. Tudo que sabemos que faz bem às pessoas nessa situação é o que o bom senso já nos ensinou há muito tempo: a parcimônia no uso de medicamentos e de outras medidas terapêuticas e o cuidado afetuoso preferencialmente no seio da família.
Não parece que os “dementes” de hoje estejam em condições muito melhores que os “caducos” de antanho. A questão é saber se não teríamos feito melhor se, em vez de gastar bilhões com medicamentos e exames pouco úteis, tivéssemos usado este dinheiro para educar as famílias, capacitar cuidadores e formar profissionais com uma visão mais humanista sobre a velhice.
