O mundo é um palco

All the world’s a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances,
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first, the infant,
Mewling and puking in the nurse’s arms.
Then the whining schoolboy, with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad

Made to his mistress’ eyebrow. Then a soldier,
Full of strange oaths and bearded like the pard,
Jealous in honor, sudden and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon’s mouth. And then the justice,
In fair round belly with good capon lined,
With eyes severe and beard of formal cut,
Full of wise saws and modern instances;
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slippered pantaloon,
With spectacles on nose and pouch on side;
His youthful hose, well saved, a world too wide
For his shrunk shank, and his big manly voice,
Turning again toward childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion,
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.

William Shakespeare

O poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare é um dos escritores mais conhecidos mundialmente. Seus sonetos e peças de teatro estão entre as obras mais famosas e adoradas, sendo lidos e encenados até hoje. Parte deste sucesso é fruto do caráter humano e universal de sua obra: é fácil se identificar com os personagens de seus dramas e com a sua poesia. E isso é bastante verdadeiro no caso de All the world’s a stage, originalmente escrito na forma de um monólogo para a peça As you like it.

A poesia compara o mundo a um palco e todas as pessoas a meros atores de um drama pessoal. Assim, nossa vida seria como uma peça de teatro. Além disso ela descreve as sete idades do homem: a criança de colo, o menino em idade escolar, o amante apaixonado, o soldado que luta pela sua pátria, o juiz que sabe discernir o certo e o errado, o aposentado e o velho. O caráter universal e que nos toca ao ler a poesia é que essas idades são – com a exceção dos casos de morte precoce – absolutamente consistentes com a evolução de todos nós ao longo da vida. Passaremos por todas essas fases até chegarmos àquela última idade, na qual estaremos, segundo Shakespeare, já esquecidos e infantilizados, sem dentes, sem visão, sem paladar, sem nada.

Apesar do caráter inegavelmente melancólico deste final do poema, podemos tirar dele algumas lições bastante úteis. Podemos utilizar essa sequência de idades para reconsiderar as prioridades em nossas vidas. Além disso, podemos questionar a validade de algumas intervenções que prometem aumentar nossa longevidade sem uma contrapartida de garantir um mínimo de qualidade de vida na velhice. Seria melhor morrer aos 80 anos com uma qualidade de vida boa ou morrer com 81 anos após um ano inteiro de uma (sobre)vida decrépita e cheia de sofrimentos?

É claro que, em um nível individual, nunca teremos certeza de nosso futuro, e essas incertezas são exatamente o que torna interessante a nossa vida. Além disso, esta inevitabilidade da decrepitude para quem viver o suficiente poderia levar a uma mudança de paradigma nas pesquisas médicas: o que aconteceria com as intervenções médicas se em vez de nos preocuparmos apenas com a quantidade de vida nos preocupássemos também com a qualidade da vida das pessoas nos ensaios clínicos?