O ano de 2020 nos ensinou muitas coisas e seguimos aprendendo com tudo que vivemos em um ano absolutamente improvável. O problema será nos lembrarmos posteriormente de tudo isso para tirarmos as lições corretas. Contrariando aquela antiga ideia de que a primeira impressão é a que fica, o psicólogo Daniel Kahneman cita uma regra geral (a “regra do pico-fim”) segundo a qual tendemos a lembrar apenas dos pontos extremos e dos momentos finais de nossas experiências, esquecendo de grande parte de seus detalhes. Atualmente, todos concentramos nossas esperanças na ciência – com suas vacinas – e muitos falam de um “triunfo da ciência”. Mas é importante não cairmos no erro descrito por Kahneman de esquecer todos os golpes sofridos pela ciência ao longo da crise.
A ciência foi politizada quando medicamentos candidatos a algum papel terapêutico foram associados a personagens bizarros da política, levando alguns medicamentos a serem imediatamente santificados ou execrados antes mesmo de qualquer estudo clínico ter sido publicado. Se hoje podemos ter mais segurança para indicar ou não alguns tratamentos, é porque o tempo permitiu que os pesquisadores gerassem dados sobre a sua (falta de) eficácia. Se para alguns parece absurdo adotar o uso disseminado de um medicamento ainda não devidamente testado apenas porque um líder político o exaltou, não é menos preocupante que muitas pessoas descartem a priori o seu uso pelos mesmos motivos. Afinal, esta sempre deveria ser uma decisão tomada por médico e paciente individualmente e à luz da ciência durante uma consulta clínica.
A ciência foi ridicularizada quando duas das mais importantes revistas médicas do mundo publicaram artigos científicos grosseiramente falsificados pela empresa Surgisphere. Quando periódicos tidos como sérios, como New England Journal of Medicine e Lancet, publicam dados científicos, supõe-se que eles tenham sido verificados pelos editores e revisados por pares, o que deveria ser a rotina nas publicações médicas. Neste caso específico, se não fossem as centenas de acadêmicos ao redor do mundo que alertaram para o erro – algo somente possível em um sistema científico democrático, tolerante e transparente –, teríamos acreditado em uma das maiores fraudes científicas recentes. Nunca saberemos se o que levou os tais periódicos a esse deslize foi a pressa em desbancar alguns tratamentos ou o desejo de abraçar uma nova maneira de fazer ciência sem pesquisadores de carne e osso a partir de um número gigante de dados sigilosos “analisados” por supercomputadores.
A ciência foi sufocada quando cientistas sérios foram silenciados apenas por defenderem um ponto de vista diferente daquele aceito pela maioria. É somente quando os gigantes da internet tomam para si a função de definir por meio de códigos binários e de secretos algoritmos o que seja verdadeiro ou falso é que se torna possível tratar pesquisadores sérios com ampla bagagem acadêmica e credibilidade da mesma maneira que alguém que defende o uso terapêutico do ozônio retal contra a covid. A boa ciência sempre precisou de posições antagônicas e críticas construtivas para seguir evoluindo. Os cientistas sabem disso e respeitam as opiniões diferentes de pessoas honestas. Afinal, é da pluralidade e das nuances de pensamento – algo impossível para o sistema binário de um algoritmo – que nascem as melhores ideias.
A ciência foi esnobada quando vários tratamentos passaram a ser utilizados em consultórios e em hospitais antes mesmo de qualquer evidência conclusiva de benefício. Todos sabemos que a ciência tem mais dúvidas que certezas, e isso é absolutamente normal. É por isso que, em relação às intervenções médicas, devemos idealmente “testar antes de tentar”. Algumas vezes a gravidade da situação pode levar o profissional a tentar algo que ainda não tenha sido testado. O problema é quando isso vira rotina, como vimos acontecer com medidas adotadas no início da crise e que posteriormente foram abandonadas.
A ciência foi mutilada quando as novas “descobertas científicas” passaram a ser anunciadas em press releases ou comunicados de imprensa, com a divulgação seletiva e incompleta dos dados e sem qualquer possibilidade de avaliação por pares e debates críticos. Várias dessas descobertas demoraram meses para serem devidamente publicadas e algumas foram prontamente desmascaradas como inúteis após a publicação dos dados completos. Os fragmentos de informações divulgados seletivamente nesses comunicados de imprensa visam construir uma determinada narrativa, enquanto a ausência de dados objetivos impede que as críticas e correções necessárias sejam feitas. Assim, a “divulgação científica por press release” é a antítese da boa ciência.
A ciência foi torturada quando os políticos fizeram as maiores barbaridades afirmando agir em nome da ciência. É improvável que lockdowns de três dias, obrigação do uso de máscaras para teleconferências via internet e toque de recolher após às 20 ou 22 horas tenham qualquer base científica, embora este álibi científico fosse muitas vezes exaltado por políticos incapazes e perdidos. O incrível disso tudo foi que, em nenhum dos casos, cientistas vieram a público tentar descolar a boa ciência da má política.
O problema da regra descrita por Daniel Kahneman, é que fazemos escolhas importantes a partir de lembranças incompletas dos eventos. Pensando assim, parece fundamental que não esqueçamos tudo isso apenas por causa das vacinas e do sucesso esperado da ciência. Passada a crise, deveríamos lembrar de todos esses problemas para evitar que se repitam. A ciência só triunfará, de fato, se lembrarmos disso tudo e evitarmos esses mesmos erros em eventuais novas crises. A boa ciência é democrática, transparente, tolerante e cheia de incertezas. Mas ela é também como uma joia delicada que perde muito de seu brilho quando se impregna de populismo, autoritarismo e dogmatismo.
