Seguir a ciência para onde?

O mantra dos novos tempos é este: “Follow the science!”. Ou: “Siga a ciência!”, em bom português. Apesar de a frase ter sido muito difundida, ela não deveria ser proferida de modo automático e exige uma reflexão sobre o que seja a ciência ou em que situações ela realmente deva ser seguida. O problema é que a ciência é bem menos exata do que a maioria das pessoas imagina, o que não é de forma alguma novo nem ruim. Existe uma ilusão de que a ciência joga suas luzes todas para o mesmo lado e de que os cientistas concordam com tudo entre si. Afinal, vemos por todo lado a existência dos chamados “consensos científicos”. Mas a realidade é que um consenso científico é algo bem mais raro do que se imagina, mesmo nas situações mais comuns.

Imagine uma situação comum como uma pessoa com pneumonia bacteriana. Há definitivamente um consenso de que devemos tratá-la com antibióticos. Qual antibiótico? Neste caso já não há consenso. Existem algumas recomendações principais entre as quais basear as escolhas médicas. Por quanto tempo tratar? Tampouco há consenso. Isso depende da situação clínica e do antibiótico escolhido. Ou seja, se não há consenso em coisas corriqueiras como uma pneumonia bacteriana, como esperar que haja algum em situações novas ou incomuns? Ainda assim, há quem insista em publicar consensos científicos.

Na década de 1990, Petr Skrabanek já criticava a falta de sentido em reunir pessoas para votar pela obtenção de um suposto consenso, como se algum tipo de maioria muitas vezes obtida por meio da escolha cuidadosa dos participantes ou, o que é bem pior, pela influência de interesses financeiros, significasse um consenso verdadeiro. Segundo ele, a simples necessidade de obter um consenso significa que não existe consenso sobre determinado assunto. E isso não é necessariamente ruim, pois a ciência se alimenta de ideias contrárias e do pensamento crítico. É exatamente a falta de consenso que faz a verdadeira ciência evoluir. Em vez de forçar um consenso onde ele não existe, Skrabanek defendia que os cientistas voltassem ao trabalho e realizassem novas pesquisas.

O grande defensor da liberdade de opinião, John Stuart Mill, já defendia no século XIX que as opiniões dissidentes fossem consideradas seriamente em vez de silenciadas pela força. Ele reconhecia que muitas vezes eram as opiniões contrárias ao pensamento hegemônico que estavam corretas e, neste caso, suprimi-las impediria que se corrigisse um erro fundamental. No caso de opiniões dissidentes que não fossem consideradas corretas, Mill lembrava que ainda assim haveria benefício em contrastá-las com a opinião hegemônica. Por um lado, o contraste com uma opinião errada poderia aumentar a força de uma verdade, como se ela fosse exercitada pelo embate de ideias. Por outro lado, mesmo ideias erradas podem conter fragmentos de verdade que poderiam ser incorporados à ideia hegemônica e, dessa forma, a engrandeceriam.

A verdade é que a ciência é feita de ideias, experimentos, debates e críticas. Como regra, o que se entende por consenso científico costuma significar apenas que uma visão tem apoiadores mais numerosos ou poderosos que seus oponentes ou que as visões dissidentes foram de alguma forma silenciadas, nem sempre por meio de argumentos racionais. Na maioria das vezes não há um consenso verdadeiro. Quando existir um consenso verdadeiro, obviamente que a ciência deve ser seguida e deve pautar as decisões. Mas deve-se lembrar que a ciência é apenas uma ferramenta que pauta as decisões. Quem toma as decisões importantes são os homens, geralmente alguns poucos escolhidos para tal e que, infelizmente, nem sempre estão à altura do desafio.

Os seres racionais têm ainda a opção de, na ausência de um consenso científico, optar por um recurso ainda mais útil: o bom senso. Vamos a outro exemplo: por mais que se tente espremer toda a ciência que envolve o uso das máscaras faciais nas mais variadas situações, a verdade é que as evidências para qualquer lado são fracas, incompletas e questionáveis. Mas isso não significa que não se deva usá-las nunca. Faz muito tempo que os profissionais de saúde utilizam de maneira consistente as máscaras faciais ao atenderem pessoas com doenças infecciosas respiratórias potencialmente graves e contagiosas. Os profissionais nunca deixaram que a falta de consenso científico suplantasse o bom senso. Talvez a opção geral pelo bom senso nos tivesse sido mais útil que o “siga a ciência” na crise atual: ao tentarmos seguir a ciência no caso das máscaras, ficamos sem saber direito para onde ir.

Devemos seguir a ciência? É evidente que sim! Sempre que a ciência apontar suas luzes todas para a mesma direção devemos seguir naquela direção, pois seria burrice continuar no escuro. Por outro lado, sempre que houver muito debate sobre um tema, é exatamente porque as luzes da ciência são fracas ou apontam para várias direções. Nesses casos, é interessante manter a cautela e não tomar partido de maneira apressada nem adotar posições extremas. O próprio Mill dizia que não são os fundamentalistas de ambos os lados que se beneficiam das discussões entre pontos de vista contrários, mas, sim, aquelas pessoas astutas que testemunham o debate e tiram suas próprias conclusões de maneira ponderada e parcimoniosa. Ou seja, sempre que não houver um verdadeiro consenso, opte pelo bom senso. E siga a ciência quando ela realmente souber para onde ir.