Na abertura de seu ótimo A morte do pai o escritor norueguês Karl Knausgård diz que para o coração a vida é fácil, pois ele apenas se limita a bater enquanto puder. O livro trata da relação difícil entre o autor e seu pai, mas o capítulo de abertura fala da dificuldade que nossa sociedade demonstra ao lidar com algo tão fundamental como a morte. Talvez isso ocorra porque nossa sociedade procura evitar a dor e o sofrimento a todo custo – às vezes a um custo demasiado alto – e a morte representa exatamente o ápice de nossos sofrimentos.
A verdade é que o coração humano foi despojado de toda poesia que sempre o acompanhou. Transformamos o coração em um mero órgão responsável por bater em uma sociedade que só se preocupa com seu coração enquanto uma possível fonte de entupimentos vasculares e infartos. Há muito deixamos de vê-lo como os poetas e outros humanos de antanho, como responsável por duas das mais humanas atividades: sofrer e amar.
O sofrimento é visto atualmente como uma fraqueza do indivíduo em uma sociedade que supostamente prospera, quando na verdade a capacidade de sofrer – e de amar! – é fundamental para a sobrevivência de nossa espécie. É cada vez mais comum tratarmos as dores e sofrimentos da alma como se fossem apenas uma doença clínica e como se aquela pessoa precisasse de um tratamento para “parar de sofrer”. Talvez por isso, optamos tão facilmente por medicalizar o sofrimento – em vez de buscarmos melhorar a sociedade em que vivemos – e estamos batendo todos os recordes em número de pessoas que usam antidepressivos e outros medicamentos para tentar apaziguar o que muitas vezes não pode ser apaziguado dessa forma. Longe de defender algum tipo de crueldade ou sadismo terapêutico e reconhecendo que algumas dores da alma precisam de cuidados profissionais, trata-se de aceitarmos um certo grau de sofrimento como inerente à própria vida e de revermos a relação da sociedade com isto que nos diferencia da frieza das máquinas. Afinal, como diz Byung Chul Han em Sociedade paliativa, uma vida sem sofrimento e com felicidade permanente já não será uma vida humana.
A capacidade de amar também já parece se esgotar gradualmente. Em uma sociedade permanentemente anestesiada por intervenções farmacológicas e tecnológicas há um visível embotamento daquelas capacidades que foram fundamentais para a humanidade. Já não criamos os vínculos estreitos e humanos necessários ao amor. Em The art of loving o psicanalista Erich Fromm já nos lembrava que o amor é uma arte e, como tal, necessita de aprendizado e esforço. Segundo o autor, não será possível a alguém amar sem que disponha de qualidades como humildade, coragem, fé e disciplina. Em uma cultura onde essas qualidades são raras, o verdadeiro amor também será um evento raro. Porém, a nossa necessidade humana de amar e ser amado continuará viva, independente de ela estar cada vez mais oculta na sociedade, o que apenas aumentará o nosso sofrimento.
Ao que parece, a vida do coração já não é tão fácil. Ele segue batendo enquanto pode e até parece bater por mais tempo, mas já não bate com a mesma força e alegria. Nietzsche dizia que ao impedirmos todo tipo de sofrimento, nossa felicidade também se apequena, como se fossem os dois lados de uma mesma moeda. Talvez por isso vivamos em uma sociedade em que o tédio parece vicejar como nunca, pois já nem amamos nem sofremos como deveríamos. É como se estivéssemos gradualmente criando uma sociedade de homens sem coração, cada vez mais preocupados com o desempenho ou a simples autopreservação e menos capacitados para amar e sofrer. Mas afinal, para que serve um homem sem coração?
