Raimundo não influencia ninguém

Com seu porte franzino, era a segunda ou terceira vez que Raimundo voltava ao consultório. Natural de uma pequena cidade do interior do Nordeste, estava em Porto Alegre há alguns anos em busca de melhores condições de vida. Apesar da magreza evidente, trabalhava carregando e descarregando carga em caminhões para uma multinacional. Era casado e vivia com a esposa desempregada e um filho pequeno em uma casinha alugada. Ele não estava exatamente doente, mas queria fazer alguns exames porque havia perdido uma irmã jovem para o câncer há poucos anos e outro irmão, também jovem como ele, parecia também estar padecendo de algum tipo de câncer lá em sua cidade natal. A preocupação com a doença do irmão e a distância física entre os dois eram motivo de sofrimento enorme para ele. Certo dia, Raimundo trouxe uma tomografia do irmão para que eu a interpretasse para ele. A situação era muito ruim, pois se tratava de um extenso câncer primário de órgão abdominal já disseminado para ossos e pulmões. Raimundo sabia que, para um homem de verdade, existem coisas mais importantes que o dinheiro. Assim, ele não pensou duas vezes e decidiu que pediria para ser demitido da empresa a fim de receber algum dinheiro que possibilitasse comprar a passagem para que ele voltasse a ver o irmão ainda com vida. E assim foi feito. Raimundo era franzino apenas no porte físico. Por dentro era um gigante.

Essa é uma história real, dessas que facilmente passam despercebidas no consultório, e não há como não se emocionar com ela. A disposição de Raimundo para largar um emprego conquistado a duras penas e usar a pequena rescisão contratual para comprar uma passagem de volta para sua cidade natal para ver e abraçar o irmão – ainda que isso signifique uma penúria ainda maior para a família em um futuro próximo – é de cortar o coração. Ele já havia feito os cálculos e acreditava que o dinheiro ganho seria o suficiente para fazer a viagem e ainda pagar o aluguel para a família que ficaria por aqui. A esposa dizia que Raimundo era um funcionário exemplar e que a empresa o contrataria novamente quando voltasse. É claro que as qualidades de Raimundo a essa altura são indiscutíveis, mas não podemos ter a mesma certeza em relação às intenções dessas grandes empresas. Só resta torcer para que Raimundo seja reintegrado ao trabalho e que isso ajude a tornar menos doloroso o seu luto.

Saindo um pouco dessa vida real que pode ser tão bela e ao mesmo tempo tão dura, entramos nisso que todos nós construímos juntos e que chamamos de mundo virtual. E, por aqui, as coisas andam de mal a pior. Há pilantras e aproveitadores por todo lado, e todos eles querendo ganhar dinheiro fácil oferecendo produtos e serviços mirabolantes nas redes sociais. O que mais existe são corpos inchados por hormônios em excesso e rostos distorcidos por procedimentos estéticos desnecessários e infelizes, além de profissionais completamente desvairados em busca de dinheiro oferecendo curas milagrosas para doenças discutíveis. Isso sem falar nos vendedores dos mais variados cursos que prometem transformar qualquer pessoa em milionário em pouco tempo. Parece que ninguém se lembra da importância de simplesmente ser uma pessoa decente dentro e fora das redes sociais.

Essas pessoas são aquilo que resolvemos chamar de “influenciadores digitais”, indivíduos que influenciam o comportamento dos outros e, dessa forma, multiplicam as suas próprias qualidades pelo mundo afora. O problema é que as qualidades dessa gente não são lá muito positivas, e esses “influenciadores digitais” às vezes representam o que há de mais desprezível no ser humano. De certa maneira, como sociedade, resolvemos multiplicar o que havia de pior em nós em vez de dar voz e espaço aos bons exemplos que ainda existem, mas que ninguém vê. Acontece nas redes exatamente o que ocorre na vida real: existe uma enorme desigualdade de oportunidades e de visibilidade, o que faz com que a voz das pessoas simples e boas seja abafada pelo estardalhaço daqueles seres afoitos e sedentos pelo vil metal.

É impossível não lamentar essa triste realidade ao se imaginar o mundo bem diferente – e muito melhor – que teríamos se os nossos “influenciadores digitais” tivessem pelo menos algumas das qualidades de Raimundo. Somos nós todos que perdemos ao optarmos por multiplicar nas redes sociais a maldade em lugar da bondade, a competição em lugar da colaboração e a ganância em lugar da generosidade. O “pobre” Raimundo seguirá sendo uma boa pessoa, mesmo que ninguém o saiba e mesmo que isso represente continuar passando dificuldades pela vida afora. Raimundo não influencia ninguém, e esta é uma grande tragédia para todos nós.