As expectativas hipertrofiadas

Quem foi criança na década de 1970 certamente acompanhou as aventuras do “incrível Hulk”, estrelado por Lou Ferrigno. Na história ele era um homem pacato que se transformava em uma criatura verde e disforme toda vez que se irritava com alguma coisa. Sua célebre frase era “Você não gostaria de me ver irritado”. Depois disso era só esperar para que ele inchasse, grunhisse e rasgasse sua tradicional camisa xadrez de flanela para dar espaço àqueles músculos enormes. A criançada adorava, mas sabia no fundo que aquilo não era algo normal. No caso do Hulk, aqueles músculos disformes eram consequência da radiação a que tinha sido exposto. Já o ator Lou Ferrigno teria usado uma perigosa combinação de intermináveis horas de academia e diversos hormônios para interpretar o personagem. O incrível Hulk era sabidamente uma aberração.

A evolução é feita de ciclos e as modas acabam retornando. Recentemente, a mídia reverberou a morte de mais um jovem saudável que parece ter sido vítima de infarto fulminante. Segundo as notícias, o jovem era um fisiculturista “extremamente saudável” que tinha feito uma avaliação cardiológica há poucos meses que nada detectou em termos de anormalidades clínicas. Nunca saberemos detalhes específicos de cada caso, mas a expressão “extremamente saudável” e a avaliação clínica “normal” são aqui salientadas para refletirmos sobre o que isso pode representar. Não há absolutamente nada errado em ser “saudável”. Muito pelo contrário, ser saudável é uma bênção e uma conquista diária. O problema pode estar no “extremamente”, o qual pode significar o exagero e a desmesura na busca por uma saúde que já se tem.

Ninguém pode ser “extremamente saudável” da mesma forma que uma mulher não pode estar “ligeiramente grávida”. Para alguém que já tenha uma boa saúde, exagerar na dose de hormônios, dietas e exercícios não o deixará mais saudável. Com o auxílio de uma mídia sedenta de notícias bombásticas e de profissionais de saúde ávidos por clientes generosos, criamos uma indústria do culto à hipertrofia desmedida, como se isso fosse sinal de saúde. Porém, não existe qualquer relação conhecida entre essa hipertrofia muscular exagerada e a obtenção de saúde ou longevidade. Pelo contrário, é sabido que um corpo demasiadamente hipertrofiado só pode ser alcançado com um número exagerado de horas em academias ou com a ingestão de substâncias potencialmente nocivas à saúde, como hormônios e/ou estimulantes.

Além disso, sempre é bom lembrarmos que o modismo atual em relação ao termo “hipertrofia” não anula o fato de ele descrever uma condição patológica na qual um órgão ou músculo cresce de maneira exagerada em resposta a algum estímulo. É assim que o coração de uma pessoa hipertensa fica patologicamente crescido (hipertrofiado) ao ser exposto diariamente a uma tensão vascular exagerada. É também a sobrecarga muscular repetida causada pelo esforço exagerado na academia (muitas vezes potencializada pelo uso de anabolizantes) que leva à adaptação hipertrófica de determinados grupos musculares. Em outras palavras, transformamos uma condição patológica em um novo normal.

Os verdadeiros atletas – aqueles que se exercitam por uma razão definida – costumam ter seus corpos facilmente reconhecíveis. É por isso que podemos diferenciar sem dificuldade aqueles atletas que praticam natação ou que jogam futebol. Cada um deles apresenta hipertrofia em determinados grupos musculares a fim de realizar determinada função (nadar ou correr e chutar uma bola). Podemos dizer que existe uma finalidade em seu esforço de preparação física. O mesmo dificilmente pode ser dito de quem busca a hipertrofia por si só, como um fim em si mesma. Tais pessoas costumam dizer que “treinam”, embora não saibam dizer qual é a finalidade exata desse treino. No final das contas, elas treinam apenas por treinar, como se estivessem em um movimento circular onde treinam para ficar hipertrofiadas a fim de treinar mais ainda e assim sucessivamente. Em outras palavras, existe um caráter tautológico nessa empreitada toda que, a partir de determinado momento, pode comprometer a saúde muito mais que promovê-la.

É preciso ainda lembrar que uma avaliação clínica normal não deve ser vista como um álibi para o exagero ou a extrapolação dos limites de cada pessoa. Qualquer pessoa “normal” pode cair dura se tentar correr uma maratona ou levantar um peso de 200 kg sem uma preparação adequada. Isso significa que mesmo pessoas absolutamente normais têm limites fisiológicos que precisam ser reconhecidos para que não se coloque em risco a própria saúde. A avaliação clínica, mesmo quando adequadamente realizada, pode apenas detectar anormalidades que poderiam prejudicar a saúde de alguém em condições de vida normais. Em outras palavras: uma avaliação clínica normal não nos dá superpoderes.

Enfim, não é difícil imaginar que muita gente esteja correndo riscos e prejudicando sua saúde ao tentar desenvolver um grau bizarro de hipertrofia muscular que está longe de ser saudável. Isso significa que tristes notícias sobre a morte de jovens saudáveis seguirão aparecendo na mídia. Ninguém consegue virar um Hulk se não arriscar a própria saúde com esforços exagerados em academias ou com o uso imprudente de hormônios e outras substâncias potencialmente perigosas. É evidente que a prática de alguma atividade física é benéfica para as pessoas em geral e que um certo grau de desenvolvimento muscular pode fazer bem à saúde. Mas não se deve esperar que um corpo exageradamente hipertrofiado seja garantia de saúde adicional. Muito pelo contrário. Mais do que nunca, precisamos hipertrofiar é o nosso bom-senso.