A pseudociência da indústria

Desde que Karl Popper resolveu definir como científico apenas aquilo que podia ser refutado ou falseado, mesmo as boas teorias passaram a ser vistas como verdades temporárias, o que paradoxalmente é ótimo para a ciência. Embora a própria afirmação de Popper possa parecer mais metafísica que científica, desde a publicação de A lógica da pesquisa científica[1] passamos a enxergar a ciência como uma empreitada caracterizada pela alternância de teorias que se desmentem e se contradizem constantemente, fazendo com que sobrevivam aquelas que mais se adaptam ao conhecimento atual. Tal “evolucionismo científico” garante o vigor daquelas teorias científicas que resistem às críticas e às tentativas de refutação ao mesmo tempo em que dá oportunidade para que os pesquisadores derrubem aquelas teorias menos robustas.

Um bom exemplo de teoria que foi refutada é o uso de betabloqueadores em pessoas que apresentam insuficiência cardíaca. Há várias décadas, o uso desse tipo de fármaco em pacientes com função sistólica reduzida era considerado quase como uma heresia terapêutica. No entanto, depois que alguns estudos refutaram essa ideia e demonstraram melhora clínica e redução na mortalidade entre as pessoas com insuficiência cardíaca que usaram betabloqueadores, uma nova teoria foi criada para acomodar essa nova compreensão de que o bloqueio dos receptores beta pode ser benéfico em pessoas com função cardíaca reduzida.[2] Isso foi possível em parte porque os betabloqueadores são drogas antigas e de custo acessível, o que facilita para que pesquisadores independentes possam testá-los em suas pesquisas. É graças a essa espécie de “democracia científica” que os betabloqueadores passaram a ser amplamente usados na prática clínica com grande benefício para os pacientes.

Por outro lado, a ciência médica das últimas décadas não se ajustaria facilmente ao critério de demarcação proposto por Popper para diferenciar as teorias científicas daquelas não científicas ou pseudocientíficas. Isso porque, embora seja verdade que, em tese, toda descoberta científica publicada nos periódicos médicos pode ser refutada, na prática as coisas são bem mais complicadas. A partir do momento em que transferimos para a indústria farmacêutica a imensa maioria das pesquisas clínicas (pelo menos 75%, segundo algumas avaliações[3]) e a possibilidade de testar seus próprios produtos, acabamos criando um viés enorme e ao mesmo tempo atrofiando a capacidade de produção científica daqueles pesquisadores e centros acadêmicos independentes que poderiam tentar refutar os achados da indústria farmacêutica. Isso foi muito bom para a indústria, embora tenha sido terrível para a ciência e a própria sociedade.

A melhor maneira de testar a falseabilidade de uma teoria científica passa pela replicação do estudo em questão para tentar confirmar seus achados, de preferência quando isso é feito por pesquisadores independentes e utilizando delineamentos adequados. Na prática, a coisa se complica porque não é fácil testar uma droga nova que esteja protegida por direitos de patente que podem durar décadas, conforme a criatividade jurídica das partes envolvidas[4]. Além disso, é bem pouco provável que a indústria colabore com pesquisadores independentes que tentam demonstrar que sua droga é exatamente isto: uma droga.

Imagine que um pesquisador ou centro acadêmico qualificado e independente deseja realizar estudos com as novas drogas antiamiloide para a doença de Alzheimer utilizando desfechos clinicamente relevantes para médicos, doentes e familiares, em vez de usar os desfechos pífios apresentados pelos estudos da indústria[5], os quais se encontram muitíssimo abaixo do mínimo necessário para que sejam clinicamente detectáveis. Convenhamos que é pouco provável que uma empresa farmacêutica forneça as drogas e seus respectivos placebos sabendo que corre um risco enorme de perder os bilhões de dólares que já computa em suas projeções de lucro e com os quais já contam os seus ávidos investidores.

Também pode ser útil imaginar se um pesquisador independente conseguiria testar as novas “canetas emagrecedoras” em ambientes parecidos com a vida real, em pacientes menos selecionados, em prazos maiores, com vigilância intensiva dos efeitos colaterais, analisando os custos dos tratamentos e descrevendo a intensidade da recuperação do peso após a cessação do uso da droga. Conforme análises preliminares,[6] os resultados seriam bem menos impressionantes do que aqueles de estudos escolhidos para publicação pela indústria, o que poderia reduzir bastante o atual hype desses medicamentos, sendo pouco provável que uma empresa que lucra fortunas com essas drogas permitisse que sua narrativa fosse posta em dúvida.

Enfim, é importante percebermos o quanto antes que, sob um ponto de vista prático, a atual “ciência médica” de científica tem muito pouco, uma vez que se tornou completamente dependente da indústria farmacêutica e não tem as condições mínimas para refutar suas alegações, o que a deixaria até mesmo de fora dos limites que Popper usava para definir o que seja ciência. É possível que essas condições de refutação surjam depois de muitos anos, quando a indústria já tiver faturado seus bilhões com a venda de medicamentos não necessariamente eficazes ou seguros, e quando essas drogas já tiverem perdido os direitos de patente que as acabam deixando, na prática, imunes a quaisquer tentativas de refutação. Criamos assim uma ciência médica esquisitíssima que é ao mesmo tempo científica (na teoria) e pseudocientífica (na prática) e que tem servido muito mais à própria indústria farmacêutica do que à sociedade e à própria medicina.


[1] Popper, K. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 2004.

[2] https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/194661

[3] https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/196846

[4] https://prospect.org/health/2023-06-06-how-big-pharma-rigged-patent-system/

[5] https://www.researchgate.net/profile/Adriane-Fugh-Berman/publication/372785679_Are_New_Alzheimer_Drugs_Better_Than_Older_Drugs/links/64d3d2cd1290c33cce7d9961/Are-New-Alzheimer-Drugs-Better-Than-Older-Drugs.pdf

[6] https://www.medscape.com/viewarticle/996578?form=fpf