O mundo moderno se caracteriza pelo excesso de tudo. Há um excesso de informações, consumo e acumulação jamais visto em outras épocas. Também é verdade que há um excesso de desfaçatez e desigualdade até então inédito na história da humanidade. Em relação à acumulação, os arautos das doenças mentais – aqueles que usam o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como ferramenta para rotular comportamentos e moldar a nossa percepção do que seja normal ou patológico – criaram há vários anos até mesmo um novo rótulo que engloba a questão do acúmulo exagerado: o transtorno de acumulação compulsiva (TAC).
O problema é que o dito transtorno se ocupa apenas daquelas pessoas comuns que, por alguma debilidade do raciocínio, acumulam de maneira compulsiva coisas geralmente desimportantes e têm dificuldade em delas se desfazer. Nesse caso, as coisas acumuladas são bastante variadas, incluindo roupas, animais de estimação, papéis velhos, garrafas PET e diversas outras bugigangas. Infelizmente, os criadores do TAC deixaram de fora de seu rótulo diagnóstico aquelas criaturas realmente adoecidas que acumulam dinheiro de maneira patológica e ameaçam de fato a sociedade. É importante salientar que esta não é uma crítica àquelas pessoas que tenham eventualmente enriquecido por meio do trabalho honesto de uma vida toda. Nosso real problema – o qual denota o caráter insano da sociedade atual – é o número crescente de bilionários ou super-ricos que acumulam dinheiro de forma fácil e sem qualquer necessidade real de fazê-lo e, ainda assim, conseguem se manter não apenas à margem da máquina de rótulos da psiquiatria, mas também com status de ícones perante a humanidade.

É por isso que se deveria criar com urgência uma nova entidade nosológica que abarcasse tal comportamento doentio: o transtorno por excesso de dinheiro (TED). Tal transtorno poderia ser visto como um subtipo – talvez o mais grave – dos transtornos de acumulação compulsiva já presentes no DSM. Os infelizes afetados pelo TED apresentariam uma combinação de características clínicas:
– acumulação imperiosa de dinheiro e outros bens de caráter pecuniário sem qualquer esforço próprio relevante ou necessidade de fazê-lo, uma vez que sua fortuna absurdamente grande faz com que os milhões que continuam chegando às suas burras sejam absolutamente irrelevantes;
– ausência total de insight sobre a gravidade de sua doença e falta de empatia pelos muitos milhões de pessoas que poderiam ter suas vidas melhoradas caso houvesse uma distribuição mais justa da riqueza desses acumuladores patológicos;
– incapacidade recalcitrante para se desfazer da quantidade indecente de dinheiro acumulada, o que gera grande ansiedade e “angústia de separação”, mesmo quando percebem que uma eventual doação de boa parte de suas fortunas não faria qualquer diferença, uma vez que de todo modo eles não teriam tempo de vida suficiente para gastar tanto dinheiro;
– persistência do comportamento acumulador compulsivo mesmo que seu caráter patológico, abusivo e nefasto seja reiteradamente demonstrado por médicos, economistas, jornalistas, sociólogos, filósofos, antropólogos e diversos outros profissionais com um mínimo de bom senso;
– ideias delirantes de grandeza que podem incluir coisas tão absurdas como gastar fortunas inimagináveis para dar voltas à órbita terrestre em naves espaciais de sua propriedade ou tentativas reiteradas de resolver pessoalmente os mais diversos problemas mundiais mesmo sem ter qualquer capacitação técnica para tal;
– infantilização cognitiva manifestada por um comportamento competitivo que busca uma satisfação vazia e temporária resultante de supostos poderes sobrenaturais atribuíveis ao “homem mais rico do mundo”.

É evidente que existem diversos outros sinais clássicos da doença que não foram descritos aqui por questão de espaço ou que ainda podem ser identificados por observadores atentos e acrescentados à síndrome clínica do TED. Curiosamente, a medicina tem deixado esses portadores de TED sem qualquer rótulo diagnóstico e sem tratamento adequado, essa mesma medicina que é sempre tão ávida em rotular como patológicos aqueles comportamentos que fogem à regra. Deixar de diagnosticar e tratar essas pessoas gravemente adoecidas é como deixar de diagnosticar e oferecer ajuda àquelas pessoas que apresentam níveis de pressão arterial de 300/150 mmHg ou níveis glicêmicos acima de 1.000 mg/dL.
Em um mundo onde morrem cerca de 10 milhões de pessoas ao ano por causa da miséria e da fome[1], ser patologicamente super-rico é, muito mais do que uma doença, uma vergonha lamentável. Se lembrarmos que a erradicação da fome custa pouco mais de 10 dólares mensais por pessoa salva[2], é fácil perceber que as centenas de bilhões de dólares acumuladas por cada um desses bilionários seria capaz de erradicar a fome do planeta em poucos anos com relativa facilidade. Se não o fazemos, e se continuamos a tratar essas pessoas como se fossem mentalmente sanas e até mesmo a reverenciá-las, então talvez estejamos todos gravemente adoecidos e moralmente anestesiados.
Enfim, não parece haver dúvida de que um acumulador de fortunas indecentes é muito mais doente e perigoso para a humanidade que um pobre coitado que preenche todos os cantos da casa com papéis velhos ou garrafas PET. Isso porque, enquanto um acumulador comum junta porcarias que de qualquer modo acabariam no lixo, o portador de TED acumula riquezas que fazem uma enorme falta para a humanidade. Assim, urge que a medicina inclua – ainda que a título de reflexão jocosa – o TED entre as patologias oficiais do DSM, o que tornaria esses pacientes passíveis de alguma intervenção terapêutica e até mesmo de interdição legal, como fazemos com outros dementes. É apenas assim que essas pobres almas receberão o tratamento merecido e serão finalmente reconhecidas pela sociedade pelo que realmente são: pessoas profundamente doentes.

[1] https://www.theworldcounts.com/challenges/people-and-poverty/hunger-and-obesity
[2] https://www.weforum.org/agenda/2015/07/how-much-would-it-cost-to-end-hunger/