A esperança está grudada na carne

Nas últimas semanas, o Rio Grande do Sul – e, por extensão, o Brasil e o mundo – tem enfrentado uma tragédia sem precedentes. A devastação das inundações em diversas cidades gaúchas e o sofrimento indizível por elas causado ganharam destaque na mídia do mundo inteiro. E não poderia ser diferente, considerando-se a magnitude da destruição causada pelas águas e a possibilidade de que essa tenha sido apenas uma demonstração do que podemos enfrentar nas próximas décadas em razão das mudanças climáticas e de um modelo de desenvolvimento predatório e nada sustentável que coloca em risco a própria existência humana.

Parte da tragédia poderia ter sido mitigada pelo enorme sistema de contenção contra enchentes instalado há mais de 50 anos em Porto Alegre e que reduziria o impacto das águas se as manutenções e melhorias periódicas tivessem sido realizadas e se tal sistema estivesse em condições ideais de funcionamento. Porém, a triste realidade é que mesmo um improvável sistema de contenção perfeitamente hermético talvez não fosse suficiente e, em todo caso, em nada ajudaria a reduzir a devastação que ocorreu em outras partes do estado e nas cidades vizinhas à capital.

É preciso reconhecer a pequenez humana diante das forças da natureza. É também preciso haver um tanto de humildade para aprendermos com os nossos erros. O problema é que temos uma tendência inata para o esquecimento, em especial no que se refere àqueles acontecimentos que consideramos desagradáveis. Em um de seus romances, Milan Kundera diz que vivemos imersos em um imenso esquecimento e não nos preocupamos com isso. É talvez por isso que tenhamos deixado as coisas evoluírem até a situação atual. Esquecemos de cuidar das estruturas que poderiam nos proteger contra inundações. Esquecemos que a natureza é imensamente mais poderosa que nossas mais avançadas tecnologias. E esquecemos que, ao devastarmos a natureza, estamos causando a nossa própria desgraça.

Se algo nos serve de consolo, desde os primeiros momentos da tragédia, chamou a atenção a grandeza da solidariedade vinda de todo lado, o que inclui desde os moradores menos atingidos nas áreas alagadas até pessoas de todo o país e até mesmo de outros continentes que se mobilizaram para enviar doações, equipamentos e pessoal treinado para reduzir o impacto da tragédia. Tem sido emocionante ver pessoas de todo tipo unidas pelo objetivo maior de resgatar as vítimas da enchente seja em botes velozmente guiados por militares e equipes da defesa civil, barcos conduzidos por humildes pescadores ou jet-skis trazidos por voluntários que vieram de longe para auxiliar nos resgates. Além disso, a pronta disponibilidade de milhares de voluntários é também uma bela manifestação de nossa humanidade. É nessas horas que percebemos – se formos minimamente sensíveis – que todos fazemos parte de uma realidade maior, que estamos todos juntos no mesmo “barco” e que ninguém está realmente seguro até que todos estejam seguros.

Entre as coisas mais impressionantes nessa tragédia estão também os relatos de pessoas resgatadas após terem ficado durante dias e noites dentro da água ou perigosamente equilibradas nos telhados de suas casas à mercê das chuvas e do frio. É impossível não imaginar que, após tanto tempo sem comida, água ou notícias confiáveis, é muito fácil perder as esperanças e simplesmente desistir do resgate e da própria vida. Os sobreviventes demonstraram uma vontade de viver que tem emocionado a todos.

Então talvez seja realmente verdade aquela máxima que diz que enquanto há vida, há esperança. Ou talvez seja ainda melhor recorrer à poesia de Cazuza, quando ele dizia que “a esperança está grudada na carne”. De fato, agora parece mais claro que existe algo de realmente especial na vida humana que faz com que nos apeguemos a ela apesar de todas as tragédias já vividas e das inevitáveis dificuldades que estão por vir. E, ainda que o mesmo Cazuza vocifere que “a vida é bem mais perigosa que a morte”, parece claro que devemos correr o risco de seguir vivendo.