O tempo e seus aromas

O olfato é um sentido slow por excelência. Essa afirmação, embora possa parecer estranha a princípio, é fácil de ser compreendida. Não podemos acelerar o processo de percepção dos aromas da mesma forma que fazemos com as imagens ou os sons. Nosso mundo cada vez mais se caracteriza pela sucessão de imagens reais ou virtuais que são rápida e superficialmente processadas por nosso cérebro. O mesmo parece acontecer com os sons do mundo moderno, onde o bendito silêncio é algo cada vez mais raro e está sempre ameaçado pela cacofonia da vida diária.

No caso do olfato a coisa é bem diferente. Precisamos de algum tempo para processar os aromas, e eles não podem ser percebidos e processados com a mesma velocidade com que a retina e o cérebro lidam com as imagens. Precisamos de tempo e de alguma concentração. Outra característica que faz com que o olfato seja slow é a resistência da memória olfativa à passagem do tempo. É comum que recordemos de aromas que nos foram importantes na infância ou em situações marcantes de nossas vidas. Além disso, todos temos os nossos aromas prediletos – sejam eles o cheiro de um café recém-passado ou de um pão que acaba de sair do forno –, e eles parecem estar diretamente ligados às nossas emoções. Não é coincidência que o nervo olfatório tenha primazia entre todos os nervos cranianos e esteja diretamente ligado ao sistema límbico, local fundamental para o processamento de nossas emoções.

Em seu belo ensaio The scent of time, o filósofo coreano Byung-Chul Han utiliza a metáfora do olfato para refletir sobre a nossa relação atual cada vez mais problemática com o tempo. Para o autor, a civilização moderna vive uma crise em relação à experiência do tempo, a qual não se limitaria ao processo de aceleração da vida diária. Han acredita que nosso maior problema seja o que ele denomina de dispersão ou atomização do tempo. Neste processo, a aceleração seria apenas um sintoma ou um processo secundário causado pela abolição, em grande medida voluntária, dos intervalos entre nossos inúmeros quefazeres. Nossos verdadeiros problemas seriam o culto à produtividade e a falta de sentido em nossas vidas, algo que perceberíamos melhor se nos permitíssemos tempo para contemplar a vida e refletir sobre os nossos propósitos mais profundos.

O culto à produtividade faz com que estejamos sempre em atividade, evitando aqueles momentos de tranquilidade que poderíamos usar para refletir sobre o que realmente estamos fazendo com nossas vidas. Assim, os intervalos entre nossas inúmeras atividades diárias são evitados ao máximo por serem experimentados como momentos de tédio, em vez de serem usados para o ócio criativo. Isso destrói as conexões necessárias entre nossas diversas atividades diárias e impede a criação de uma narrativa fluida e significativa. Dessa forma, nossa vida parece resumir-se a um eterno presente vivido em staccato, o qual estaria completamente desconectado do passado que nos trouxe até aqui e do futuro que deveríamos vislumbrar pela frente. Acabamos por esquecer que qualquer presente só pode ter algum significado quando ligado de forma coerente a um passado e a um futuro.

A ausência desses intervalos de reflexão – os quais Han chama de vita contemplativa, em oposição à vita activa – nos transformaria em seres transitórios e também privaria nossas vidas de grande parte de seu significado. Tal ausência nos acabaria transformando a todos em um tipo de animal laborans, o qual passaria a vida toda em uma espécie de “imobilidade frenética”, pulando agitadamente de uma tarefa a outra, mas sem saber exatamente o sentido de cada uma delas. Além disso, sem essa alternância saudável entre vita activa e vita contemplativa, surge o que Han chama de “discronicidade”, a ausência de um ritmo necessário para nossas vidas, o que as acabaria transformando em uma mera marcha alucinada rumo ao tédio e à finitude.

A metáfora usada por Han em seu ensaio é a famosa cena criada por Proust no clássico Em busca do tempo perdido, na qual o aroma das madalenas mergulhadas na xícara de chá ativaria memórias afetivas que remetiam aos momentos felizes do passado do personagem. Para Han, é exatamente essa percepção do aroma do tempo – este demorar-se em algo – que nos poderia devolver algum sentido para nossas existências. Para o autor, uma sociedade dominada pelos aromas não teria essa propensão à aceleração e à fragmentação da vida que vemos hoje, a qual degrada o tempo em uma mera sequência de momentos presentes fugazes e insignificantes. Tal sociedade provavelmente seria bem mais propensa à contemplação e, por extensão, bem menos angustiada e muito mais feliz.