A era da picaretômica

Fazer medicina de uma maneira séria está cada vez mais difícil. Os desafios para manter-se honesto são grandes e as tentações atuais são muitas, o que explica a quantidade profusa de profissionais que optam pelo caminho tortuoso de uma carreira médica baseada nas redes sociais. Ainda pior é a situação dos pacientes, os quais são transformados em seguidores e bombardeados diariamente por uma enormidade de dados pseudocientíficos e pela oferta de serviços e produtos de gosto duvidoso e base científica irrisória. Em meio a essa verdadeira selva representada pelas redes sociais, nada melhor do que se ter algum discernimento e parcimônia para separar o joio do trigo e proteger o bolso e a saúde.

Algo cada vez mais pervasivo nas redes sociais são as postagens que se utilizam do sufixo “ômica” para criar uma impressão de seriedade onde ela nem sempre está presente. Embora tal sufixo realmente exista e algumas vezes apareça em publicações científicas consideradas sérias, nas redes sociais ele costuma apenas emprestar um verniz de ciência a alguma picaretagem trivial. Termos como metabolômica, microbiômica, inflamômica, lipidômica, glicômica e o que mais se possa imaginar com a mesma rima tragicômica são apenas subterfúgios variados para tirar dinheiro de consumidores incautos.

Os adeptos da abordagem inflamômica acreditam que a inflamação seja a causa de todos os males e costumam pregar a abstinência de quase tudo que o ser humano consome desde os tempos mais remotos, o que pode tornar a relação das pessoas com os alimentos ainda mais difícil. Embora as alergias alimentares verdadeiras existam de fato e possam causar problemas de saúde, na vida real elas felizmente são raras. Já para aqueles que visam lucrar semeando o medo na população, elas parecem ser muito mais comuns. O pobre leite seria, na visão dos inflamômicos, um grande vilão que em vez de saciar a fome de crianças famintas geraria doenças inflamatórias graves e poderia explicar coisas tão variadas como aquela dor de cabeça antiga ou uma alteração qualquer nos exames de sangue. Nessa mesma visão inflamômica, o pão nosso de cada dia deixa de ser um alimento básico e passa a explicar boa parte dos problemas clínicos da civilização atual, tornando-se inclusive mais importante como agente patogênico do que a miséria e a desigualdade social gritantes na sociedade.

O caso da microbiômica é também bastante pitoresco. Sabe-se que o nosso microbioma – o conjunto de microrganismos que habitam nosso corpo – varia em associação com diversas estados de doença. Isso significa que uma pessoa deprimida pode ter um microbioma distinto de uma pessoa que apresente boa saúde mental. O mesmo contraste pode haver entre uma pessoa obesa ou diabética e outra pessoa magra ou não diabética. Contudo, isso não significa que a simples administração de determinadas bactérias por via oral irá curar um quadro de depressão, diabetes ou obesidade. Embora esta seja uma hipótese que merece ser devidamente testada em grandes estudos clínicos conduzidos por pesquisadores honestos e independentes, é muito mais provável que as diferenças de microbioma se devam a diferenças no ambiente ou nos hábitos de vida dessas pessoas. Dito de outro modo, até o momento a administração de microbiota fecal a seres humanos para tratar problemas mentais ou metabólicos parece funcionar tanto quanto mergulhar um termômetro no gelo para tratar um paciente febril que apresenta uma infecção grave.

Enfim, embora nem todo uso do sufixo ômica represente má-fé, quando ele vier acompanhado da oferta de consultas ou exames caríssimos que prometem uma avaliação metabolômica, microbiômica, inflamômica ou qualquer outra dessas bizarrices, é bem provável que você esteja sendo enganado. Mais do que nunca, é preciso manter um cuidado redobrado em relação aos mais variados neologismos ômicos, os quais na maioria das vezes não passam de variantes da picaretômica, esta sim um mal grave que ameaça não só a saúde das pessoas, mas a própria continuidade da medicina como profissão séria e respeitada na sociedade.