Resumo
Título: Famigerados Anticorpos antiamiloide vs. Intervenções Sociais Criativas na doença de Alzheimer (Estudo FAÍSCA)
Introdução: A doença de Alzheimer é uma entidade nosológica de prevalência crescente e para a qual ainda não existem tratamentos que tragam benefícios clinicamente relevantes, embora exista a sugestão bastante plausível de que intervenções sociais possam trazer benefícios aos pacientes.
Métodos: Este é um estudo randomizado e multicêntrico realizado em um ambiente clínico representativo da realidade social brasileira que comparou duas intervenções distintas em pessoas com doença de Alzheimer leve a moderada elegíveis para o uso de anticorpos monoclonais antiamiloide. Os pacientes foram divididas de maneira aleatória em dois grupos: o primeiro recebeu infusões quinzenais da droga lecanemabe, enquanto o segundo grupo recebeu uma intervenção social que consistia em uma ajuda de custo no valor exato do gasto mensal com a droga (12.500 reais mensais, considerando o custo atual da droga de 26.500 dólares por ano de tratamento)[1].
Resultados: O estudo randomizou exatamente 1.000 pacientes em cada um dos grupos de intervenção para facilitar a compreensão do leitor. Os resultados foram acachapantes em favor da intervenção social a ponto de não precisarem ser demonstrados na forma de valores de p, intervalos de confiança ou redução do risco absoluto. Enquanto muitos pacientes tratados com lecanemabe apresentaram reações infusionais (n = 245), hemorragias cerebrais (n = 160) e edema cerebral (n = 135) relacionados à infusão da droga, tais complicações não foram vistas no grupo da intervenção social como resultado direto desse tratamento[2]. Além disso, houve 7 mortes no grupo do lecanemabe (taxa de mortalidade de 0,7% no estudo original da droga)[3]. O grupo da intervenção social usou a renda mensal extra de diferentes maneiras: muitos contrataram cuidadores e outros profissionais de saúde (médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos) para melhorar o cuidado de seus entes queridos com Alzheimer; alguns preferiram abandonar seus empregos e se dedicar pessoalmente em tempo integral ao cuidado de seu familiar doente; enquanto outros não puderam prestar os cuidados diretamente e usaram o dinheiro para colocar seu familiar em instituições que proviam cuidados de qualidade para essas pessoas com demência. No final das contas, todas as medidas de capacidade cognitiva dos pacientes e, em especial, as métricas de qualidade de vida de pacientes e familiares melhoraram muito no grupo da intervenção social que ofereceu um cuidado mais afetuoso ao seu familiar com Alzheimer sem colocar em risco a condição econômica da família. Por outro lado, tais métricas apresentaram piora progressiva no grupo tratado com o anticorpo monoclonal. Todos os desfechos do estudo foram analisados ao final do primeiro ano de tratamento. O planejamento inicial era estender o estudo por mais um ano, mas considerando as disparidades gritantes dos achados entre os grupos, ao final do primeiro ano os pacientes e familiares do grupo do lecanemabe quiseram ser transferidos para o grupo da intervenção social, o que impediu a realização de uma análise comparativa com um período de tratamento maior.
Conclusão: Uma intervenção social nos moldes descritos nesse estudo poderia trazer benefícios imensamente maiores para os pacientes com Alzheimer e seus familiares em comparação com a visão estreita de gastar fortunas em medicamentos indecentemente caros, potencialmente perigosos e de benefícios clínicos irrelevantes. Tal intervenção não aumenta os custos para o sistema de saúde e ainda traz benefícios clínicos e sociais que vão muito além da própria doença de Alzheimer.

Discussão
A doença de Alzheimer é uma doença grave que acomete uma parcela cada vez maior da população idosa. As pessoas acometidas pela doença necessitam de cuidados variados em quantidade crescente, o que pode colocar em risco, entre outras coisas, a própria saúde financeira da família. Também chama a atenção que os tratamentos atualmente descritos como “revolucionários” para o tratamento da doença (os chamados anticorpos monoclonais antiamiloide) sejam – para dizer o mínimo – decepcionantes. Além de não oferecerem qualquer benefício clínico relevante que possa ser percebido pelos profissionais e familiares dos pacientes na forma de melhora do funcionamento diário do paciente, eles nem mesmo parecem ser superiores às antigas formas de tratamento, como as já bastante desacreditadas drogas anticolinesterásicas.[4]
Como se isso não bastasse, o custo das drogas antiamiloide para os pacientes e os sistemas de saúde pode ser astronômico, o que representa uma imensa desproporcionalidade entre os benefícios pífios e os preços aviltantes cobrados pela indústria farmacêutica. Um problema adicional é que tais drogas estão longe de ser seguras. Pelo contrário, tais medicamentos demonstram taxas elevadas de efeitos colaterais graves, como edema cerebral, hemorragias cerebrais e reações infusionais. Em conjunto, essas informações nos deveriam levar à consideração de estratégias terapêuticas mais criativas que possam não apenas trazer benefícios clínicos aos doentes com Alzheimer, mas também reduzir a sobrecarga imposta pela doença aos orçamentos familiares.
A primeira coisa a ser considerada é que nosso papel como profissionais de saúde não é “oferecer aos pacientes os medicamentos mais modernos para cada doença”. Nosso papel deve ser visto como algo muito mais abrangente que passa pela defesa de todo o entorno da rede de cuidados que envolve aquela pessoa doente. Talvez tenhamos sofrido uma lavagem cerebral bastante eficaz promovida por uma ciência distorcida que nos dificulta perceber que nossas estratégias terapêuticas na doença de Alzheimer vão muito além de uma droga de eficácia duvidosa que apresenta efeitos colaterais indubitavelmente graves. Não é difícil imaginar que a maioria dos médicos atuais – incluindo muitos neurologistas –, ao terem de escolher entre infusões quinzenais de uma droga antiamiloide e uma “bolsa Alzheimer” de 12.500 reais mensais, optaria sem titubear por essa forma criativa de intervenção social. Alguém poderá considerar inusitado que o governo fornecesse uma ajuda mensal desse tamanho apenas porque um paciente apresenta Alzheimer em fase inicial, mas talvez seja ainda mais esquisito imaginar que se gaste essa mesma quantia pagando por um tratamento absolutamente inútil e perigoso.
É evidente que todos nós, profissionais de saúde e pacientes, adoraríamos que fossem desenvolvidas drogas realmente efetivas e que trouxessem benefícios clínicos relevantes para as pessoas com quadros demenciais graves, mas este certamente não é o caso atual. E, até que tais drogas sejam uma realidade, não parece razoável que gastemos fortunas em drogas inúteis e perigosas enquanto a maioria das pessoas e famílias que convivem com a doença de Alzheimer não têm o mínimo de condições socioeconômicas para oferecer os cuidados básicos para lidar com a doença de uma maneira que possa manter a dignidade do doente e a sustentabilidade financeira da família. O uso de uma intervenção social pode não apenas trazer benefícios clínicos relevantes para os doentes como também oferecer inúmeros benefícios sociais para a família e gerar empregos na comunidade ao entorno do doente. Ou seja: gastar fortunas em drogas inúteis em vez de ajudar doentes, famílias e comunidades a lidarem melhor com o problema é uma insanidade que coloca em xeque a própria capacidade cognitiva de quem toma as decisões no sistema de saúde.
*Os “Ensaios não controlados do Dr. Pirro” são entidades ficcionais que visam estimular reflexões e se referem àqueles estudos que deveríamos urgentemente realizar, mas que nunca tivemos a coragem necessária para fazê-lo.

[1] https://www.alz.org/alzheimers-dementia/treatments/lecanemab-leqembi
[2] http://unmfm.pbworks.com/w/file/fetch/156776460/50.full.pdf
[3] https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2212948
[4] https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/article-abstract/2807943