A arte de esquecer

A capacidade de esquecer, muito mais que a de lembrar, talvez seja o que torna os seres humanos tão especiais. Ela nos diferencia dos animais, na medida em que operamos um esquecimento seletivo ao longo da vida, de alguma maneira optando por lembrar das coisas boas ou que nos ajudam a viver melhor. Ela também nos diferencia da frieza estúpida das máquinas, as quais retêm para toda a eternidade cada bit de memória, o que tem criado um problema enorme para a humanidade na medida em que todos esses bits eternos precisam ficar armazenados em algum lugar, ocupando espaço físico e desperdiçando recursos naturais escassos – como energia elétrica e água potável – que seriam mais bem usados de outras maneiras.

Todos conhecem a história de Ireneo Funes, o memorioso personagem de Borges que nada esquecia. O pobre Funes gastava um dia inteiro recordando de absolutamente cada detalhe – insignificante! – do dia anterior. No final das contas, Funes compartilhava da mesma estupidez das máquinas, com a exceção de que ele sofria com isso, a ponto de morrer de uma congestão pulmonar causada pela sobrecarga mental. Como dizia Borges, Funes não era muito capaz de pensar, já que pensar humanamente envolve esquecer diferenças, generalizar e abstrair.

Assim, esquecer é uma arte a ser aprendida e aprimorada por todos nós ao longo da vida. E, se algumas coisas merecem ser armazenadas, a maioria das coisas do mundo pode ser esquecida sem qualquer prejuízo para uma vida humana plena e produtiva. Isso é especialmente verdade na área da saúde com sua enxurrada de informações falsas e mal-intencionadas que, ao fim e ao cabo, deveriam ser descartadas na lata de lixo da história em vez de serem guardadas em nossos preciosos lobos temporais já bastante apinhados. E é exatamente para preservar sua saúde que foram pensados os seguintes conselhos sobre o que lembrar de esquecer:

  • Se você se sentia doente, mas o médico não o escutou, não o examinou, nem usou uma bola de cristal e mesmo assim atribuiu algum rótulo diagnóstico esquisito, esqueça…
  • Se o mesmo médico apressadinho prescreveu vários medicamentos, esqueça…
  • Se o médico não tinha a mínima ideia sobre qual era o seu problema e solicitou dezenas de exames, esqueça…
  • Se o consultório de seu médico está sempre cheio de representantes de laboratório e de amostras “grátis” de medicamentos, esqueça…
  • Se o médico defende o uso de medicamentos “de marca” por serem melhores que os genéricos e não apresenta provas disso, esqueça…
  • Se aquele médico do Instagram que fala maravilhas de um medicamento atua como garoto-propaganda ou speaker da indústria que produz o mesmo remédio, esqueça…
  • Se a médica do Instagram fala muito bem de determinado dispositivo, produto ou substância bizarra, mas ganha a vida fazendo merchandising descarado em suas postagens, esqueça…
  • Se a melhor evidência para aquela caríssima infusão de selênio é um estudo que envolve oito camundongos e duas ratazanas, esqueça…
  • Se os melhores atributos do médico do Instagram forem um perfil bonito, um corpo sarado e um rosto “harmonizado”, esqueça…
  • Se algum profissional defende um ponto de vista ou intervenção da qual se beneficia diretamente, esqueça…
  • Se o médico está na lista de pagamentos da indústria farmacêutica ou vive viajando para congressos à custa da indústria, esqueça…
  • Se a ciência que embasa qualquer intervenção é claramente enviesada, esqueça…
  • Se a “melhor evidência disponível” é um estudo fajuto patrocinado, delineado e conduzido pela própria indústria que produz e vende o medicamento, esqueça…
  • Se a “ciência” que embasa uma determinada intervenção não pode ser avaliada em profundidade e replicada por outros pesquisadores independentes, esqueça…
  • Se aquela droga da moda é anunciada como uma verdadeira panaceia que trata desde obesidade até compulsão por cerveja e Alzheimer, esqueça…
  • Se alguém defende com veemência a ciência médica, mas não condena o fato de ela ter sido sequestrada e estar a serviço do capital da indústria farmacêutica, esqueça…

Infelizmente, a verdade é que não posso lembrar de tudo e essa lista citada não esgota o assunto, de modo que deve haver várias outras coisas a serem esquecidas nessa conturbada área da medicina e da ciência médica. E lembre-se de que sua saúde depende disso!