Os vieses estão em toda parte. Todos temos as nossas tendências e preferências pessoais, o que nos leva a fazer determinadas escolhas em detrimento de outras. A simples ideia de que possamos agir de maneira totalmente imparcial nas mais diversas situações da vida já pode soar estranho para muita gente. O que talvez nos custe um pouco reconhecer é que mesmo aquelas atividades conhecidas por seu rigor técnico e metodológico podem ser enviesadas. Há quem acredite, por exemplo, na imparcialidade absoluta da ciência ou mesmo em seu caráter apolítico. Mas não devemos ser ingênuos: a ciência, como qualquer outra empreitada humana, pode ser bastante enviesada e é absolutamente vulnerável a influências políticas.
Podemos imaginar, a título de reflexão, que uma mesma droga fictícia estivesse sendo desenvolvida concomitantemente nos Estados Unidos, na Albânia e na Coreia do Norte. A ciência usada no desenvolvimento clínico da droga poderia ser bem diferente nos três países e mesmo assim ser considerada adequada em todos os casos. Isso porque os pesquisadores podem optar por caminhos diversos para posicionar a nova droga entre as opções terapêuticas e, ainda assim, todos os caminhos podem ser compatíveis com o método científico geralmente aceito. Enquanto os norte-coreanos ajustariam seus métodos para satisfazer os interesses pessoais de seu bizarro líder, os albaneses provavelmente estariam interessados em saber se o custo da nova droga não seria incompatível com os recursos de seu sistema de saúde. Já os pesquisadores estadunidenses fariam de tudo para ajustar seus delineamentos a fim de gerar o máximo de lucro para a indústria que fabrica a droga e os próprios estudos que sustentarão o seu uso.
E não se deve imaginar que o enviesamento – deliberado ou não – da ciência é algo raro ou difícil de realizar. Podemos criar viés ao compararmos uma droga com um placebo quando já existe um competidor eficaz e muito mais barato. Podemos criar viés ao suspendermos abruptamente os tratamentos prévios dos pacientes na comparação de uma droga psicoativa com um placebo e provocar graves sintomas de abstinência. Podemos criar viés ao compararmos uma droga nova com subdoses de drogas existentes. Podemos ainda criar viés ao interrompermos antecipadamente um estudo e aproveitar o momento mais favorável ao tratamento novo. Enfim, existem infindáveis maneiras de se criar viés em estudos clínicos e ainda assim sugerir um método cientificamente adequado. Além disso, podemos enviesar a própria medicina ao analisarmos os estudos científicos sem a devida consideração dos custos e riscos envolvidos, como se vivêssemos em um vácuo econômico e moral. E podemos ainda enviesar a opinião pública ao propagarmos manchetes sensacionalistas que aumentam a procura por tratamentos milagrosos cujos benefícios reais podem ser muitíssimo menores do que aqueles descritos na mídia.
Uma das maiores falácias nessa era de cientificismo exacerbado é a ideia de que a ciência é sempre imparcial e que os pesquisadores têm absoluta liberdade para delinear os estudos e obter o máximo benefício para a humanidade. Nada poderia estar mais distante da realidade, pois nossa ciência é bastante vulnerável aos interesses daqueles que a financiam. No caso específico da ciência médica atual, em que pelo menos 75% das pesquisas clínicas são patrocinadas pela própria indústria farmacêutica, é evidente que o principal interesse de quem define o delineamento das pesquisas e seus prováveis vieses é a geração do lucro máximo para a indústria. Afinal de contas, vivemos na era da “ciência neoliberal” e todas as instituições estão impregnadas por essa visão de mundo que apequena o ser humano e empobrece a nossa existência.
A triste realidade é que a ciência acaba se conformando ao zeitgeist de sua época. Uma ciência praticada em um país democrático não é metodologicamente muito diferente daquela praticada sob um regime fascista, mas algumas escolhas feitas por pessoas envolvidas nas pesquisas podem determinar vieses que se conformam a suas preferências pessoais e institucionais. A Alemanha pré-segunda guerra era um dos países intelectual e cientificamente mais desenvolvidos e, no entanto, usou seus recursos científicos para desenvolver armamentos mortais e aprofundar uma visão eugenista que hoje nos parece uma aberração difícil de justificar. Mas é importante lembrar que não foi a ausência de ciência que levou os alemães a praticarem as atrocidades conhecidas, mas sim o fato de a ciência se calar e se conformar a um status quo doentio. É exatamente por isso que devemos estar mais atentos que nunca, pois aquele senhor alaranjado que hoje (des)governa a “America” tem poder suficiente para distorcer a ciência e “provar” coisas bastante improváveis, como as já devidamente refutadas relações entre algumas vacinas e autismo.
Enfim, não faltam vieses em nossas vidas e até mesmo atividades consideradas rigorosas e imparciais como a ciência podem ser distorcidas por vieses. A ideia ingênua de que basta algo ser “ciência” para que seja considerado bom deve ser abandonada o quanto antes, pois não passa de cientificismo cego. Precisamos, sim, da ciência, e muito. Mas precisamos também combater os vieses que acabam minando sua credibilidade. Afinal, uma ciência enviesada e sem credibilidade tem pouca serventia e acaba sendo usada como mera ferramenta nas mãos daqueles que detêm o poder. Como sociedade, devemos lutar para que a ciência seja uma poderosa e justa ferramenta usada em benefício da sociedade, como sonhava Archie Cochrane. De modo alternativo, podemos deixar tudo como está e permitir que a ciência seja cada vez mais usada pelas grandes corporações e por governantes autoritários para obter o máximo de lucro e poder. Escolham seus vieses!
