Embora as bolhas se assemelhem externamente a outras estruturas esféricas, o que as caracteriza é seu aspecto translúcido e, em especial, sua fragilidade estrutural. A primeira característica permite a visualização de seu conteúdo, o qual costuma ser um tanto desimportante. Já a fragilidade é, por si mesma, autoexplicativa: as bolhas, uma vez insufladas, têm uma propensão inata para estourarem. E não dá para dizer que isso aconteça quando menos se espera, pois o estouro pode ser previsto com alguma antecedência por quem tenha atentado ao seu crescimento e não se deixe envolver pela própria estrutura das bolhas.
Existe ainda uma característica evolutiva que define as diversas bolhas: uma vez formadas e artificialmente infladas, elas dificilmente murcham a fim de adquirir dimensões mais justas. Pelo contrário, as bolhas têm uma necessidade de crescimento a partir do momento em que são criadas, o que, em combinação com sua fragilidade estrutural, as coloca mais cedo ou mais tarde em risco certo de explosão. O problema é que tal desfecho, ainda que previsível, costuma causar muita dor e destruição ao seu redor.

Uma bolha que estourou há alguns anos e desencadeou uma crise econômica brutal foi a chamada bolha das hipotecas que acometeu o mercado imobiliário estadunidense e repercutiu negativamente em economias do mundo inteiro. Tal bolha é bastante ilustrativa do que se poderia chamar de uma “teoria geral das bolhas”: de um lado temos espertalhões que inflam intencionalmente a bolha aumentando absurdamente os preços e a importância de algo, enquanto de outro lado existem inúmeros incautos que acreditam nisso e acabam envolvidos pela bolha. Entre os dois extremos estão os profissionais que colaboram e de alguma forma se beneficiam com as bolhas. Ocorre que os espertalhões que deram início ao processo, por reconhecerem a explosão iminente, costumam sair de cena ricos e ilesos pouco antes do desfecho inevitável, deixando os incontáveis incautos com o amargo prejuízo.
A medicina, por sua vez, também não é imune à formação de bolhas. Pelo contrário, a nefasta combinação de uma ciência duvidosa produzida pela própria indústria farmacêutica com uma mídia sensacionalista sedenta por drogas milagrosas e uma sociedade que costuma preferir o uso de drogas mirabolantes em lugar de buscar mudanças pessoais e sociais mais duradouras costuma ser um prato cheio para a formação de bolhas. E não faltam candidatos a bolhas para estourar nos próximos anos, como a panaceia dos psicodélicos e as diversas formas de manipulação artificial da microbiota intestinal. Porém, há duas bolhas bem atuais que já dão sinais de ruptura iminente.
Uma delas envolve as chamadas “canetas emagrecedoras”. Vimos estourar recentemente a bolha que envolvia o laboratório fabricante da semaglutida (Ozempic), a Novo Nordisk.[1] A dita empresa farmacêutica foi alçada em 2024 à posição de “maior empresa da Europa”, em grande medida devido aos preços aviltantes cobrados e a promessas de lucros astronômicos. Porém, o que vimos nos últimos meses foi uma queda de nada menos que 70% do valor de mercado da dita empresa. Como se diz no mercado financeiro: as ações da empresa simplesmente derreteram e hoje valem exatamente o que valiam em 2021, antes mesmo da aprovação da droga para tratamento da obesidade.

Isso nos mostra, entre outras coisas, que o conceito de “valor de mercado” é um construto neoliberal bastante frágil e enganoso que costuma indicar um valor artificialmente inflacionado que não tem qualquer relação com a qualidade do produto ou com a própria realidade. A história da Novo Nordisk nos mostra ainda que mesmo com toda a inflação artificial dos benefícios clínicos para a humanidade, aliada à vergonhosa distribuição de propinas para profissionais de saúde e formadores de opinião – que agora defendem com unhas e dentes as patentes em detrimento dos pacientes -, o tempo ainda é o nosso mais sábio conselheiro.[2] Isso nos leva a refletir sobre as novas bolhas que provavelmente serão formadas à volta das outras drogas da mesma classe. Além disso, não podemos esquecer que os 70 bilhões de dólares que engordaram as contas da empresa e desapareceram com o derretimento das ações da empresa saíram dos cofres públicos e do bolso de cidadãos comuns e dificilmente serão recuperados.
Como se isso não bastasse, outra bolha que está em pleno processo de insuflação artificial rápida e perigosa diz respeito ao uso da inteligência artificial (IA) pela medicina e diversas outras áreas da sociedade. Inúmeros analistas já comparam a corrida especulativa que estamos vendo atualmente no caso do desenvolvimento e adoção apressada da IA com a bolha da internet (a “bolha ponto com”) que assolou o mundo nos anos 1990 e levou inúmeras empresas à falência e a uma quebradeira no mercado financeiro.[3] [4] [5] Ao vermos tanta gente que se esquece do princípio da parcimônia e fica embasbacada com as peripécias e promessas mirabolantes da IA, é preocupante saber que tudo isso pode logo ali adiante acabar como sempre acabam as bolhas: com inúmeras empresas fechando, muita gente perdendo seus empregos e os espertalhões de sempre ficando ainda mais ricos. Para piorar as coisas, a pressa na adoção da IA pode nos levar a um “ponto de não retorno”, quando ela já estaria tão infiltrada em nossas vidas diárias que não mais poderíamos abrir mão dessa tecnologia mesmo que ela se mostre muito menos útil do que a ideia inicialmente vendida.
Isso não significa de maneira alguma que as drogas análogas do GLP-1 ou a própria IA não sejam úteis e possam trazer benefícios para a humanidade. O que devemos ter em mente é a necessidade de reconhecer uma bolha, a fim de que possamos agir de maneira mais cautelosa. Dito de outro modo: a semaglutida e a IA podem ser boas se bem indicadas e usadas com uma boa dose de parcimônia. Porém, quando usadas de forma rápida, ampla e descuidada sem consideração do risco-benefício, das alternativas disponíveis, do custo para a sociedade e das consequências de longo prazo elas podem causar bastante dano.
Enfim, no caso das bolhas atuais e de todas as outras que ainda serão produzidas na medicina, manter um ceticismo expectante é certamente uma opção mais sábia que o deslumbre crédulo e descuidado a que temos assistido. O bom senso nos lembra que todas aquelas tecnologias e medicamentos realmente eficazes, seguros e de custo-benefício adequados não precisam de sensacionalismo midiático nem da odiosa prática de distribuição de mimos para que os profissionais aumentem as prescrições da droga ou para que adotem apressadamente a tecnologia. Além disso, não podemos esquecer que o ato de estourar é da própria natureza das bolhas e representa seu desfecho inevitável. E, no final das contas, é apenas uma boa dose de parcimônia e bom senso que garantirão que nós mesmos não sejamos também uns bolhas.

[1] https://www.reuters.com/business/healthcare-pharmaceuticals/wegovy-maker-novos-profit-warning-triggers-70-billion-share-rout-2025-07-29/
[2] https://www.reuters.com/investigates/special-report/health-obesity-novonordisk-doctors/
[3] https://www.newyorker.com/news/the-financial-page/is-the-ai-boom-turning-into-an-ai-bubble
[4] https://www.theguardian.com/technology/2025/aug/23/is-the-ai-bubble-about-to-burst-and-send-the-stock-market-into-freefall
[5] https://fortune.com/2025/08/24/is-ai-a-bubble-market-crash-gary-marcus-openai-gpt5/