A era das canetas-sanfona

A saga das “canetas emagrecedoras” segue gerando ótimas histórias conforme surgem mais dados relacionados ao seu uso naquelas pessoas que não fazem parte dos estudos controlados pela indústria. Nessa chamada “vida real”, os resultados são bem menos impressionantes, o que nos permite fazer previsões menos deslumbradas sobre o impacto dessas novas drogas na prevalência da obesidade na população em médio e longo prazo.

Com a publicação recente no BMJ de mais um estudo[1] sobre o reganho de peso em pessoas que fizeram uso dos agonistas do receptor de GLP-1 semaglutida e tirzepatida, fica claro que as tais canetas têm pouca chance de trazer benefícios duradouros para a saúde das pessoas na imensa maioria dos casos. O que o novo estudo – uma revisão sistemática de 37 estudos com cerca de 10 mil pacientes – demonstrou é que o reganho de peso após a cessação do tratamento ocorre de maneira muito mais rápida do que com outras intervenções terapêuticas e que os pacientes retornam ao seu peso pré-tratamento pouco mais de um ano após a suspensão do tratamento. Além disso, outros estudos já demonstraram que mais da metade dos pacientes abandona o tratamento antes de um ano.[2]

Esses achados nos deveriam levar a uma reflexão mais profunda sobre o real impacto das canetas emagrecedoras em nível populacional, as verdadeiras causas da obesidade na sociedade atual, a fragilidade da narrativa de que elas trariam grandes benefícios clínicos em longo prazo, a relação de custo-benefício dessas drogas e o eventual conflito de interesse de muitos atores envolvidos na disseminação da narrativa das canetas emagrecedoras como solução para o problema da obesidade no mundo. Se uma intervenção qualquer confere um benefício apenas temporário que se restringe ao período de uso da medicação, tal intervenção só poderia ter algum valor sustentado se pudesse ser utilizada por longos períodos, mas isso não parece ser minimamente razoável no caso das canetas emagrecedoras.

Para se ter uma ideia, o custo mensal das canetas emagrecedoras nos Estados Unidos gira em torno de 1.000 dólares, dependendo da droga e da dose utilizadas. Em uma sociedade obesa como a estadunidense, onde cerca de 100 milhões de pessoas seriam elegíveis para o uso dessas drogas, o custo anual para o sistema de saúde poderia alcançar facilmente a casa dos trilhões de dólares.[3] Mesmo no caso estadunidense, um gasto dessa monta só seria possível se o governo retirasse investimento de outras áreas tidas como fundamentais (como a produção de armas), o que não parece provável. Assim, não parece realista imaginar que essas drogas venham a ser usadas continuamente por uma parcela ampla da população, o que sugere que seu impacto nas taxas de obesidade não será significativo.

Em nível individual a coisa não parece ser muito melhor, existindo basicamente dois tipos de usuários potenciais para as canetas emagrecedoras. Em primeiro lugar estaria aquela pequeníssima parcela da população que tem condições financeiras suficientemente confortáveis a ponto de poder bancar essas drogas pela vida toda, o que pode trazer benefícios duradouros se os efeitos colaterais das drogas não impedirem seu uso contínuo. Outra indicação um tanto discutível seriam aquelas pessoas que desejam perder peso rapidamente para um evento específico, como um casamento ou uma temporada de verão, e que não se importam em engordar rapidamente depois disso. Para a maioria das pessoas comuns, o que teremos é o velho efeito-sanfona, só que agora turbinado.

Alguém dirá que existem valentes usuários de canetas emagrecedoras que são suficientemente esforçados para manter a dieta e os exercícios físicos a longo prazo a fim de manter a perda de peso obtida com o uso dessas drogas. Embora isso seja verdadeiro, há que se lembrar que, no final das contas, essas pessoas alcançariam o objetivo ponderal desejado se esperassem um pouco mais e colhessem esses bons resultados logo ali adiante, de maneira mais natural e sem transferir fortunas para quem produz, vende ou prescreve as “canetas emagrecedoras”.

Enfim, o mito das canetas emagrecedoras para acabar com a obesidade no mundo já não parece se sustentar minimamente, exceto para consumidores incautos e para aqueles que lucram de alguma forma com essa narrativa. De resto, e com exceção de raros magnatas e dos “emagrecidos de ocasião”, o mais provável é que as canetas emagrecedoras funcionem na maioria das pessoas apenas como uma espécie de “caneta-sanfona”, a qual turbina o efeito-sanfona e faz a pessoa emagrecer por alguns meses apenas para engordar rapidamente tudo de novo logo ali adiante. Assim, pense bem antes de transferir gordas quantias de dinheiro para as burras dessa faminta indústria da obesidade.


[1] https://www.bmj.com/content/392/bmj-2025-085304

[2] https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2819256

[3] https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/2815919