De médicos e parafusos

Dizem que, em um país qualquer não muito distante de nós, a produção de parafusos tinha sido finalmente desregulamentada. Com isso a iniciativa privada pôde entrar com tudo na atividade de produzir parafusos. Era o fim de uma era de regulamentação estrita das fábricas de parafusos e o início da era do livre-mercado dos parafusos: um período em que, conforme diz a lenda capitalista, o próprio mercado regularia a si próprio e selecionaria as melhores fábricas e os melhores parafusos.

E, até certo ponto, essa fábula parecia verdadeira. Porém, com o passar do tempo, logo se percebeu que alguns espertalhões do setor metalúrgico começaram a cobrar caro para produzir parafusos de qualidade nitidamente inferior, embora fossem à primeira vista muito parecidos com aqueles antigos parafusos de maior qualidade. Esses novos parafusos eram, em sua maioria, feitos de latão ou de variadas ligas metálicas de péssima qualidade que não serviam de forma alguma ao propósito para o qual foram adquiridos: quebravam ou entortavam ao serem minimamente apertados.

Segundo a versão da história contada pelos crentes do ideário neoliberal, nessa situação fez-se impor a chamada “lei do mercado” e tais parafusos – caros e de qualidade inferior – passaram a ser rechaçados, com as pessoas voltando a procurar os velhos e bons parafusos que haviam tido sua qualidade confirmada pelo tempo. Com isso as novas fábricas de parafusos ruins acabaram fechando uma depois da outra. A força da tal lei fez com que as boas fábricas de parafuso fossem reconhecidas, enquanto aquelas fábricas de má qualidade tiveram que melhorar seus produtos ou simplesmente fechar as portas. E tudo indicava que a tal “lei do mercado” ou a doutrina do livre-mercado tinha tido sua veracidade confirmada. Isso se essa história toda não passasse de uma fábula.

Esse tipo de raciocínio está por trás de muita coisa atualmente, chegando mesmo ao ponto de defender-se que o tal livre-mercado atue na seleção das faculdades de medicina. Com cerca de 90% das vagas atuais na formação médica entregues ao arbítrio nada livre do capital especulativo, seria excelente se a fábula dos parafusos fosse verdadeira e se aplicasse também à atual produção em série de médicos. Mas nada poderia estar mais distante da verdade.

Enquanto maus parafusos acabam na lata de lixo e são facilmente substituídos por parafusos novos e melhores, médicos com formação deficitária não podem ser prontamente substituídos. Isso porque a formação desses profissionais fundamentais à sociedade é demorada e necessariamente muito complexa. Não obstante as ideias dos imbecis de plantão, bons médicos são criaturas essenciais para a humanidade e cujo trabalho de acolhimento da dor e de eventual resolução de problemas clínicos é de importância insuperável por qualquer outra profissão.

Assim, ao enchermos a sociedade de médicos malformados, não temos como substituí-los da mesma forma que aos parafusos. E, enquanto isso, os pobres profissionais recém-saídos de faculdades caça-níqueis passarão pelo constrangimento de não saber o que fazer com seus pacientes ou – o que é bem pior – farão muitas coisas erradas e potencialmente perigosas, com riscos evidentes para si e para a sociedade.

É no mínimo por tais razões que, contrariando a visão de fundamentalistas seguidores cegos do livre-mercado, algumas funções na sociedade devem ser regulamentadas pelo governo e jamais poderiam ficar à mercê de um sistema capitalista que trata os estudantes de medicina como mera forma de extrair lucros para investidores sedentos. Além disso, jamais se poderia culpar e castigar os próprios alunos egressos dessas universidades por um fracasso que pertence aos gestores dessas faculdades e, por tabela, a todos aqueles que não se esforçaram o suficiente para evitar a abertura indiscriminada e vergonhosa de vagas em faculdades de medicina privadas nos últimos anos.

É simplesmente impossível conjugar livre-mercado com a necessidade de exigir a qualidade necessária no ensino médico. Ao permitirmos que faculdades de medicina privadas funcionassem sem as condições mínimas, o que fizemos foi rebaixar toda a profissão e demonstrar claramente as consequências nefastas da promiscuidade entre o capital e o poder público em todas as suas instâncias. Tratamos médicos como se fossem parafusos, e o resultado – demonstrado de maneira constrangedora no primeiro Enamed – não deixa qualquer dúvida: a imensa maioria das faculdades de medicina privadas com fins lucrativos, apesar de cobrarem suas mensalidades escorchantes, não oferece as condições mínimas necessárias para garantir a qualidade dos profissionais formados e a segurança das pessoas atendidas. E o estado atual da estupidez humana não permite que percebamos a diferença dantesca entre médicos e parafusos.