A ideia surgiu em uma bela manhã enquanto meu amor e eu subíamos a rua, de volta para casa, após nossa visita habitual a uma das principais feiras de produtos orgânicos da cidade. E, como de praxe, levávamos para casa muito mais do que “apenas” comida orgânica e livre dos venenos modernos. Trazíamos ali também diversas flores, uma penca de livros e algumas gravuras pintadas por uma artista local. É que temos o hábito de aproveitar o passeio para andar pelo bairro e visitar, além da feira, suas livrarias, ateliês, cafeterias e floriculturas. Ou seja, tudo aquilo que, embora seja considerado totalmente supérfluo por boa parte da humanidade, não pode faltar em nossa rotina.
Há alguns anos, George Steiner escreveu um texto inspirador sobre um tipo asqueroso de gente que compartilha do sinistro hábito de queimar livros. Segundo ele, todos esses que têm queimado livros e banido poetas ao longo da história sempre souberam muito bem o que estavam fazendo, pois reconheciam o enorme poder de um punhado de folhas coladas e recheadas de belas ideias e histórias. Alguém já disse que livros não mudam o mundo. Mas eles podem mudar a cabeça das pessoas, enchê-las de boas ideias e, agora sim, deixá-las prontas para transformar o mundo. Ou pelo menos o nosso pequeno mundo, aquilo que nos rodeia e que realmente importa para nós. E certamente é deste pequeno mundo que devemos cuidar com o máximo de afinco.

Correndo o risco de roubar uma ideia plantada por outro pensador francês há alguns séculos, é evidente que boa parte dos problemas da humanidade desapareceriam se as pessoas conseguissem ficar quietas em casa na companhia de um bom livro. Quem, absorto em meio a belos versos ou perdido nos emaranhados de uma narrativa envolvente, pensaria em fazer qualquer tipo de maldade contra o mundo, a natureza e as outras pessoas? Talvez o ato de alguém ler um livro, quieto no seu canto, seja de fato um dos maiores atos de rebeldia que se pode praticar atualmente em um mundo tão acelerado e dominado pelo apego ao virtual, àquelas “não coisas” que insistem em roubar nosso tempo e atenção. Nesse sentido, ler um livro em uma pequena sala com flores e algo de arte pelos cantos, só pode ser um ato ainda mais radical.
Essa reflexão pode gerar, em alguns espíritos mais modernos e cartesianos, questionamentos do tipo: por que alguém ainda sai de casa para obter um punhado de comida orgânica, livros, flores e arte? Por que simplesmente não olha essas coisas na tela do celular ou as encomenda pela internet? Para que serviriam essas coisas em uma época dominada pelas informações imediatas trazidas pelas não coisas? A essa altura, a resposta já deve ser óbvia. Talvez não sirvam realmente para nada e sejamos apenas dois nostálgicos, saudosos de uma época em que tínhamos mais tempo pela frente e nem nos preocupávamos com esses pequenos prazeres. Ou talvez essas coisas sirvam simplesmente para alimentar nosso espírito, nos conectando com a natureza e o restante da humanidade – esta, sim, cada vez mais perdida em suas vidas vazias e apressadas.
O fato é que chegar em casa assim carregados de boas coisas faz um bem danado. Preparar um almoço repleto de ingredientes orgânicos muito mais saborosos do que qualquer tipo de comida industrializada é uma delícia. Da mesma forma, arrumar um belo vaso com água fresca para as flores e escolher o melhor lugar para elas pode encher a casa de cores e perfumes. E definir a melhor parede ou prateleira para as novas gravuras a fim de poder admirá-las a todo instante é igualmente gostoso.

E os livros? A verdade é que os livros não são feitos apenas das ideias ou histórias que carregam em suas páginas. E, mesmo essas ideias, são apenas sementinhas que, se encontrarem um terreno fértil no coração e mente do leitor, podem perseverar e se transformar em algo ainda melhor. E, sim, cheiramos livros da mesma forma que cheiramos as flores, o café e os alimentos assim que os pegamos nas mãos. Sejam eles novos ou usados, cada livro tem seu aroma, e uma experiência de leitura jamais ficaria completa sem que primeiro se abra o livro e cheire demoradamente suas páginas. Há livros, tipicamente aqueles mais novos, que ainda cheiram a tinta fresca. Outros lembram aquele antigo aroma dos jornais que líamos – ou tentávamos ler – em nossa infância. Existem até mesmo aqueles livros que, curtidos pelo tempo, cheiram deliciosamente a tabaco. E, devo confessar, me agrada até mesmo um certo aroma picante emprestado às páginas pelo bolor do tempo.
O nervo olfatório tem primazia entre todos os nervos cranianos. É o primeiro deles, e isso talvez se deva ao fato de estar diretamente ligado aos recantos mais íntimos de nosso cérebro. Isso levou os pesquisadores a identificarem associações entre problemas deste nervo e doenças neurodegenerativas. De minha parte, sei bem o que estou fazendo e prefiro entender este nervo como uma boa forma de despertar o cérebro. Isso explica meu hábito de cheirar novamente o livro várias vezes durante a leitura. Talvez seja apenas um fetiche, mas é possível também que isso acrescente novas camadas sensoriais às memórias deixadas por uma boa leitura.
Steiner dizia que as grandes mentes perversas da história queimavam livros para impedir que as ideias neles trazidas ameaçassem o poder alcançado por esses próprios canalhas. Mas livros podem fazer muito mais do que apenas nos livrar de tiranos estúpidos e genocidas (seja em definitivo ou apenas durante o deleite da leitura). Livros podem nos fazer entender que o que realmente importa está bem perto de nós. Bem longe do poder dos tiranos e prontamente ao alcance das mãos. Livros podem nos transportar de volta à nossa própria vida!
